sábado, 3 de outubro de 2026

 


                                                                       

                                                                 A MOCHILA


            Assim que chegou, ela foi tirando tudo de dentro da mochila. Tirou primeiro uma fraldinha e, num frenesi, tirou uma necessaire transparente com escova de dente, sabonete e desodorante,  outra necessaire branca com uma cruz vermelha, presumo que contendo remédios,  uma calça comprida daquelas que viram bermudas, duas camisetas, dois pares de meias, um casaquinho, ufa! Mas não parou por aí. Cada vez mais nervosa, toda ofegante, como se estivesse fazendo um exercício muito pesado, continuou a desmanchar a mochila, jogando raivosamente todas as coisas em cima da cama. Guarda chuva e capa, boné, a parte de baixo das pernas da calça que ela está usando...

           Seus belos olhos azuis estão embaçados. Serão lágrimas? Será que ela está procurando uma carta de amor? Mas pra que trazer uma carta de amor numa caminhada como esta? Ela continua, cada vez mais aflita.

           Furiosamente,  tira um par de papetes, um pequeno secador de cabelos, meu Deus, um secador de cabelos na mochila? Só então reparo nos seus cabelos. São longos, negros e estão presos num rabo de cavalo. São lindos. Na realidade, tudo nela é lindo: a boca, os braços e as pernas. Que pernas! São pernas de caminhante. Eu tembém sou caminhante e minhas pernas não ficam assim, que injustiça!

          Ela já tirou tudo de dentro da mochila. Agora, sempre arfando pesadamente, está esvasiando os bolsos que ficam do lado de fora. Acaba de tirar um par de gandes óculos escuros, junto com um saco plástico, onde deve haver um sanduiche. Do outro bolso, saiu uma garrafa de água e uma maçã. O que será que ela procura com tanto afinco?  Do bolso no topo da mochila, saíram uma carteira, uma pastinha, talvez contendo documentos, um mapa do caminho, todo dobrado e amassado, igual ao meu, um caderninho que parece uma agenda. Pronto. Mochila completamente vazia. Ela vira a mochila de ponta cabeça, segura firme a parte de baixo e sacode com força. Caem tres moedas no chão.

          Ela se senta na cama do albergue e chora.

                                                                              ***         

domingo, 27 de setembro de 2026

 


                                    TV - HORÁRIO NOBRE


                   Assim que eu ouvi, meu miolo derreteu, virou um líquido branco, pastoso, parecido

            uma sopa de batatas. As palavras ficaram boiando nessa sopa e eu fiquei tentando pescá-las.

            Até pesquei algumas, mas elas não fizeram sentido. Agora, estou tentando pescar frases, 

            mas o barquinho do meu senso de coerência é muito frágil, chacoalha muito nesse oceano

            de miolo derretido. Além disso, é muito pequeno, não suporta muita coisa, principalmente

            se forem idéias complicadas. e o que não falta são ideias e palavras complicadas. 

            Mas eu  permaneço decidido a pescar as ideias simples, com, pelo menos uma lasquinha

            de lógica, para que eu possa entender. Enfim, consigo pescar uma frase que faz sentido: 

            "Todo político é filho da puta."   Opa! Essas palavras são minhas!   

                                                                                 ***            

                                                                                                           




                                                         


sábado, 12 de setembro de 2026

 


                                                   METRÔ VILA SÔNIA


                           Como você é linda!                            

                           Que bom que hoje você está sentada na minha frente...  Assim, eu posso te olhar                                       sem  ter que torcer o pescoço para admirar sua pele morena, seus cabelos negros,                                     seus olhos misteriosos e... que pernas! Pena que só dá pra ver até os joelhos.

                           E voce também é muito carinhosa. Vejo como trata a menininha ao seu lado. Pare-                                   cida com voce. Deve ser sua filha. Lindinha também. 

                                                  ESTAÇÃO FRADIQUE COUTINHO

                            A sua expressão mudou... até agora, você estava feliz, conversando com sua                                              filhinha.  O quê aconteceu? Agora você olha ansiona para todos os lados, parece um                                pouco preocupada... mas sempre linda.

                                                     ESTAÇÃO FARIA LIMA

                            Agora, entrou uma senhora de meia idade, um pouco parecida com você e parou na                                  sua frente. Voces conversam. Ela deve ser sua mãe. Voce beija a  menina. "Vai com a                                vó, meu bem. Eu vou mais tarde. Comportadinha, heim?"

                                                     ESTAÇÃO PINHEIROS

                            A vó desce nesta estação.Você está com a cara triste. Voce olha pela janela e acena                                    para elas. Agora, sua cara é de alivio. Por quê será? Para onde irão, sua mãe e sua                                    filha, capazes de despertar carinho, ternura, preocupação e alívio, esses                                                      sentimentos tão visíveis em seu rosto?

                                                     ESTAÇÃO BUTANTÃ

                            Você desceu. Eu fico olhando seu andar apressado, rumo à escada rolante. Até o seu                                 andar é bonito!

                                                                             ***

                            Ah... como eu queria que você olhasse para mim, pelo menos uma vez... o que diria                                  se soubesse que eu tomo este trem todos os dias neste horário, só pra te ver?

                                                                             ***


                                                                                         

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

 


                                                          DELEGADO SIQUEIRA


- Nome completo.
- José Maria da Conceição.
- Local e data de nascimento.
- Sou do norte. Guaxupé Mirim. O dia que nasci, eu não sei não senhor.
- Quantos anos o senhor acha que tem?
- Uns quarenta e cinco.
- O senhor sabe ler e escrever?
- Sei não senhor.
 - Casado?
- Eu nunca assinei os papéis, mas vivo com a Noca, já tem mais de vinte anos.
- Filhos?
- A Maria Jorgina, mais velha, o Pedroca e Rosinha, a miudinha.
- Maria Jorgina da Conceição Ferreira, acusada de ter matado o marido, é sua filha?
- Ela não matou ele.
- As digitais no cabo da faca eram dela.
-O que é "digitais"?
- As marcas na na faca, eram dos dedos dela.
- Ela não matou ele. 
- Então conte a sua versão do crime.
- O que é versão?
- Conte como foi o acontecido.
- Ele fingia que era bom, antes de casar. Depois, começou a beber e a bater nela. A pobrezinha ficava toda roxa.      Um pai não pode ver isso  e  ficar parado!
- E o que o senhor fez?
- Eu cheguei na casa, e ele estava na cozinha, batendo nela. Aí, eu peguei a faca e matei ele. Acho que dei umas   dez facadas.

- Seu delegado! Não foi assim!
- Seu nome completo.
- Maria Jorgina da Conceição.
- Data e local do nascimento.
- Vinte e cinco de maio de 2008, Guaxupé Mirim.
- Sabe ler e escrever?
- Sei.
- Conte a sua história.
- Eu estava cozinhando. O marido chegou e começou a beijar o meu pescoço. Sempre começava assim, 
  beijo  no cangote. Eu até gostava, me arrepiava toda... mas, depois...
- Depois?
- Ele mordia. Doído, machucava, deixava marca. Eu tentei me livrar, ele bateu na minha cara mais uma vez. Então,
  eu não aguentei, já estava cansada de levar tabefe na cara, todo dia. Eu não pensei em mais nada. Peguei a         faca  de cima da pia. Primeiro enfiei na barriga. Ele curvou. Então, tirei a faca da barriga e enfiei nas costas.             Muitas vezes. Ele foi caindo devagarinho, no meio de um monte de sangue... Aí meu pai chegou.

- Mentira dela! Quando eu cheguei, ela estava com a faca na mão. Eu peguei minha peixeira que estava atrás, na cintura. Ele não me viu. Ele estava agarrado no cangote dela. Eu enterrei a peixeira no lado dêle. Ele foi curvando devagarinho e eu fui enterrando a peixeira nas costas dele, até ele cair. Aí, a Jorgina baixou   deu a última facada nele.
- E a sua faca?
- A peixeira?
- Sim, o que aconteceu com ela?
- Tá aqui doutor, deu tempo de lavar, bam limpinha, antes da polícia chegar!

- Aderbal!  Prenda esses dois em celas separadas!  Já vi que vou ter muito trabalho pela frente...

                                                                                     ***

terça-feira, 18 de agosto de 2026

 

                                                           EULINA E A BIC


 Eu - Quer saber o que eu ralmente acho?

 Lina - Sim! - com a Bic na mão.

 Eu - Largue essa Bic, ninguem vai ler o que você escrever, vai fazer alguma coisa mais útil... academia por exemplo... pelo menos você emagrece, ganha belas formas.

Lina - Mas eu preciso escrever! Tenho tantas idéias fervilhando na minha cabeça... elas precisam sair!

Eu -Tá brava? Vai falando tudo o que te dá raiva, enquanto dá murros no saco de pancadas! 

Lina - Não é raiva... são bons pensamentos... amores que eu queria viver e não vivi... lugares que eu queria conhecer e não conheci...alegrias, tristezas, aventuras que queria experimentar e não experimentei... coisas assim.

Eu - E voce acha que escrever vai liberar você dessas idéias?

Lina - Acho. Pelo menos as idéias vão ter uma forma concreta, por meio das palavras.

Eu - "Forma concreta por meio de palavras" Que besteira é essa? O máximo que você vai conseguir é que algumas pessoas bem educadas leiam seus textos e digam "achei bom", com um belo sorriso amarelo estampado na cara.

Eulina - É isso!Vou ser uma produtora de sorrisos amarelos. E a minha Bic vai ser a minha fiel escudeira.

quarta-feira, 29 de abril de 2026

 



                                                  MINHA MESA DE TRABALHO  


          Olho para minha mesa de trabalho. Vejo o computador, a peça mais importante, seis canecas, do tempo em que era moda dar e receber canecas de presente, todas preenchidas com objetos como lápis pretos, lápis de todas as cores, furador de papéis, umas cinco canetas bic, várias canetas hidrocolor, uma lupa, um abridor de envelopes e outros apetrechos, como clips, apontador, escovinha, borrachas, e demais coisinhas do gênero.

          Uma lâmpada acesa no canto esquerdo da mesa, tenta fornecer luz às minhas idéias que insistem em pensar absurdos. Eu poderia aproveitar esses absurdos para escrever contos, ou crônicas, até  um romance... mas não consigo.

          Um régua de trinta centímetros espetada dentro de uma das canecas, projeta na parede uma sombra, que juntamente com a sombra das canecas, fica parecida com o recorte feito pelo perfil dos prédios, no céu de uma cidade moderna. Deixo aos leitores a tarefa de imaginar como é essa sombra.

          Eu gostaria de escrever coisas que levassem os leitores a ter pensamentos profundos, mas a minha cabeça, no momento, é um vácuo, um ôco... dá até para ouvir o vento soprando dentro dela.

          E a peça principal, constante da minha mesa é uma folha de papel em branco. Tem uma bic já sem a tampinha, pousada em cima. Ela, a folha, está querendo muito ser promovida à página. Talvez à primeira página de um romance contendo todos os absurdos que minha cabeça pensa... ou palavras que levem o leitor a pensar sobre a vida e a morte...

          Mas, desta vez, a folha não vai virar página de romance, nem de um conto, nem de uma crônica. Vai conter apenas um texto descrevendo o meu ambiente de trabalho, porém com um detalhe mais importante: sem adjetivos. 

                                                              

                                                                              ***