quarta-feira, 9 de setembro de 2026

 


                                                          DELEGADO SIQUEIRA


- Nome completo.
- José Maria da Conceição.
- Local e data de nascimento.
- Sou do norte. Guaxupé Mirim. O dia que nasci, eu não sei não senhor.
- Quantos anos o senhor acha que tem?
- Uns quarenta e cinco.
- O senhor sabe ler e escrever?
- Sei não senhor.
 - Casado?
- Eu nunca assinei os papéis, mas vivo com a Noca, já tem mais de vinte anos.
- Filhos?
- A Maria Jorgina, mais velha, o Pedroca e Rosinha, a miudinha.
- Maria Jorgina da Conceição Ferreira, acusada de ter matado o marido, é sua filha?
- Ela não matou ele.
- As digitais no cabo da faca eram dela.
-O que é "digitais"?
- As marcas na na faca, eram dos dedos dela.
- Ela não matou ele. 
- Então conte a sua versão do crime.
- O que é versão?
- Conte como foi o acontecido.
- Ele fingia que era bom, antes de casar. Depois, começou a beber e a bater nela. A pobrezinha ficava toda roxa.      Um pai não pode ver isso  e  ficar parado!
- E o que o senhor fez?
- Eu cheguei na casa, e ele estava na cozinha, batendo nela. Aí, eu peguei a faca e matei ele. Acho que dei umas   dez facadas.

- Seu delegado! Não foi assim!
- Seu nome completo.
- Maria Jorgina da Conceição.
- Data e local do nascimento.
- Vinte e cinco de maio de 2008, Guaxupé Mirim.
- Sabe ler e escrever?
- Sei.
- Conte a sua história.
- Eu estava cozinhando. O marido chegou e começou a beijar o meu pescoço. Sempre começava assim, 
  beijo  no cangote. Eu até gostava, me arrepiava toda... mas, depois...
- Depois?
- Ele mordia. Doído, machucava, deixava marca. Eu tentei me livrar, ele bateu na minha cara mais uma vez. Então,
  eu não aguentei, já estava cansada de levar tabefe na cara, todo dia. Eu não pensei em mais nada. Peguei a         faca  de cima da pia. Primeiro enfiei na barriga. Ele curvou. Então, tirei a faca da barriga e enfiei nas costas.             Muitas vezes. Ele foi caindo devagarinho, no meio de um monte de sangue... Aí meu pai chegou.

- Mentira dela! Quando eu cheguei, ela estava com a faca na mão. Eu peguei minha peixeira que estava atrás, na cintura. Ele não me viu. Ele estava agarrado no cangote dela. Eu enterrei a peixeira no lado dêle. Ele foi curvando devagarinho e eu fui enterrando a peixeira nas costas dele, até ele cair. Aí, a Jorgina baixou   deu a última facada nele.
- E a sua faca?
- A peixeira?
- Sim, o que aconteceu com ela?
- Tá aqui doutor, deu tempo de lavar, bam limpinha, antes da polícia chegar!

- Aderbal!  Prenda esses dois em celas separadas!  Já vi que vou ter muito trabalho pela frente...

                                                                                     ***