sexta-feira, 6 de março de 2015

ENFIM, AS AULAS!


                                                                                                                                           06/03/15

               Nas terças e quintas, temos aula na horta.  Adorei plantar feijões no berçário. São grandes bandejas, com depressões em forma de copinho, parecidas com as bandejas de carregar ovos, que enchemos de terra preparada e depois colocamos um grão de  feijão em cima de cada copinho e cobrimos com outra camada bem fininha de terra. Depois regamos. Pronto estão plantados. Minhas duas jovens colegas de classe e eu platamos 16 bandejas. Feijão, abóbora, pimentão, e várias outras coisas que eu não sei o que são. Ás vezes a semente é grande feito a do feijão, às vezes, micro, como a do pimentão.  Havia ainda umas sementes pretinhas, bem pequenininhas, difíceis de isolar só uma e tem de ser uma sementinha em cada copinho.

                Na outra aula, pegamos várias mudinhas já crescidinhas do berçário e transplantamos para os canteiros, ou camas, como eles chamam. Essas camas foram cuidadosamente preparadas, com terra, esterco de cavalos, folhas secas e jornais velhos. Com uma faca velha, fazemos um buraquinho, tiramos a muda do copinho, com cuidado para não machucar a raiz e colocamos no buraquinho. Depois ajeitamos a terra com carinho, pra mudinha ficar bem em pé.

               Acabamos as aulas sempre sujas, suadas, com as unhas pretas, cheia de picadas de formigas, com coceiras por conta de mato picante, mas muito felizes. Depois do banho, estamos ótimas. Vimos um ninho de formigas, vários tipos de bichos com perninhas, lagartixas e uma minhoca bem gorda com língua!  Que coisa! Um minhocão rebolando e numa das pontas, uma linguinha! Acho que poderia ser um rabinho também. Tudo depende do ponto de vista.

               As aulas teóricas foram, até agora, na maioria chatas. A de informática foi do jeito que eu imaginava: horrivel.  Eu  não entendo nem o meu computador, nem as explicações em inglês.  Estavam explicando como funciona esta escola e como funciona o sistema de avaliações on line. Ah meu Deus! Será que algum dia vou aprender isso? Ainda bem que a chinezinha me adotou como vó e teve toda a paciência de me explicar com seu sotaque, dando muitas risadas das caras que eu fazia, quando não entendia. Enfim, consegui completar o homework.

             Hoje eu tive a primeira aula sobre ecologia. Foi ótima! tomara que daqui pra frente seja assim.

             É tudo muito burocrático. Existem grupos pra tudo. Eu faço parte do grupo "Food & Kitchen" e imaginem que recebi um manual com quatro páginas tamanho A4, sobre como administrar uma cozinha. Terei reuniões sobre a cozinha todas as sextas feiras! Hoje, na reunião, ficaram discutindo a necessidade de comprar toalhas e onde dependurá-las depois. Eu quase dormi.  E ainda vou ter que ler e entender o manual, em inglês.
            A lâmpada do meu quarto queimou, eu tive de falar com alguem do grupo da manutenção, que disse que teria de pedir uma nova lampada pro líder do grupo, que não estava disponível no momento. Procurei o Rafael e ele sabia onde fica o estoque de lâmpadas, pegou uma nova e trocou pra mim, no ato. Ah! o jeitinho brasileiro, nessas horas é ótimo.

                                                              Gringos

              Na hora do almoço, todos conversam sobre o Stephen Hawking, e sua insistência em saber como foi o início do universo.  Muito chato. Eu comia quieta. Até que perguntaram pra mim:

              - Lina, what do you think?
              - What is there before the start? And after the end? - pergunto.
              - Oh! Certainly there is something!
              - Of course there will always be something before each start and after each end! - retruco.
              - Yes, but this is an interesting discussion, don't you think?
              - Interesting and useless. Because this is eternity and we will never understand eternity!

              Eles riram muito, mas eu estava fando sério.

              Voce já pode dizer eu li na tela da
                                                                      Eulina      











segunda-feira, 2 de março de 2015

PRIMEIRO DIA DE AULA



                                                                                                                                             02/03/15


               Ganhei um quadro com todo planejamento do mês de março. Todas as minhas atividades, devidamente programadas, minuto a minuto. Vou ser responsável diariamente pela limpeza de um dos corredores e da lavanderia. Uma vez por semana, vou ajudar na cozinha. Aulas teóricas, três vezes na semana, reuniões gerais duas vezes e aulas práticas, todos os dias.  É basicamente isso.
               As aulas teóricas e as reuniões eu ainda não sei como serão, mas as práticas vão ser nos viveiros de plantas, nas hortas, pomares, granja, chiqueiro... super legal! Hoje fomos visitar tudo isso. Fui comendo goiaba, carambola, as mangas são poucas e ainda  verdes.  Aqui é inverno, a primavera vai começar em 21 de março, no mesmo dia em que começa o outono no Brasil. As mangueiras ainda estão floridas, provavelmente teremos muitas mangas daqui uns dois meses.

               Por enquanto, tenho duas colegas de classe: uma chinesa e uma eslovênia, ambas de 21 anos. Bem humoradas e bem engraçadas, as duas. A eslovênia é a Natasha. Loira baixinha e peituda, um pouco gorducha, olhos redondos e azuis, cabelos  estilo moicano, voz forte, de contralto. Fala como americana, eu entendo tudo o que ela diz. A chinesa se chama Sixia (que nome, não?) também é baixinha, mas é magrinha, com cabelos compridos obviamente lisos, escuros e com franja. Ambas aparentam ter 15 ou 16 anos. Me sinto avó delas. Mas são super legais. Adorei. Pelo menos por enquanto. Tomara que eu continue gostando.

               Eu tinha entendido que era pra ter mais duas pessoas. Mas não sei se não chegaram ainda, ou se não vem mais. Pode ser também, que eu entendi tudo errado. As vezes tenho preguiça de perguntar coisas, porque as respostas são muito longas e complicadas. Eu tenho preguiça em português, imaginem em inglês...

                                                                  ***

               Banho é uma questão complicada! Gringos não gostam de tomar banho. Aí... acontece que quando eu me sento do lado de um gringo, na hora do almoço ou da janta... às vezes é um pouco difícil... mas estou ficando esperta e me sentando do lado dos que gostam de tomar banho.

                                                                  ***

               Aqui tem um casal de gatos. A gatinha teve filhotes, no quarto de um estudante. Peço pra ver, entro no quarto... passo mal, quase saio. Prendo a respiração. Que cheiro! Que bagunça! Tudo fechado, tudo abafado, tudo espalhado pelo chão! Num canto, em cima de uma pilha de roupas está a gatinha com seu lindo filhotinho. Eram dois, um morreu. Meu Deus! E o dono do quarto é tão simpático... como pode?

               Voce já pode dizer eu li na tela da
                                                                          Eulina        

KINGSTOWN

                                                                                                                             

                                                                                                                                        28/02/15



               Aqui é longe mesmo.
               Para ir a Kingstown é preciso mais ou menos uma hora de caminhada até Chateaubelair, onde fica o ponto de parada das vans que fazem o transporte coletivo. Não existe transporte público, Não existe ônibus. Existem motoristas proprietários de vans que fazem o transporte, como querem. Andam pela única estrada cheia de curvas, carregando gente, de uma cidade para outra. A ida de Chateaubelair para Kingstown, acontece por volta de seis horas da manhã, quando as vans passam pelo ponto onde as pessoas se aglomeram. Não existe fila, existe um ajuntamento de pessoas. Nunca se sabe quantas, nem quais vans estarão a caminho de Kingstown. Tudo depende dos humores dos motoristas. A única coisa que se sabe é que as vans  estarão sempre lotadas..
               Se eu quiser ir a Kingstown, devo acordar por volta de 5h., caminhar até Chateaubelair, ficar no ponto e e disputar à cotoveladas, um lugar dentro da van,

               Ainda bem que eu trouxe tudo para seis meses, porque não dá pra enfrentar essa maratona cada vez que precisar comprar um xampu ou desodorante. Ficamos todos aqui na dependência do carro da RVA, que vai regularmente à cidade, para as compras, e demais providências. Mas são só cinco lugares e sempre há várias pessoas querendo ir.Tive sorte, nesta semana de folga, tive oportunidade de ir duas vezes.

               Kingstown é uma cidade pequena, feiosa, pobre, suja e movimentada. Muita gente na rua. É uma cidade costeira, mas não  tem praia. Tem tres ruas principais, nenhum semáforo. Nos dois cruzamentos mais movimentados, fica uma mulher, policial, com um lindo uniforme branco e preto, dirigindo o trânsito, Eu pedi para tirar foto e ela fez pose. Falei pra ela que  achava lindo seu uniforme, ela ficou toda sorridente e orgulhosa.

               Aliás, muitas pessoas usam uniforme. Cada escola tem o seu, meninas de saia pregueada, verde, grená, marrom, xadrez, etc., e meninos com a calça da mesma cor. Camisa branca ou de cor clara e às vezes, uma gravatinha. Vi mulheres com um uniforme todo branco e um chapeuzinho também branco, igual  ao das fotos antigas de enfermeiras. Acho que são enfermeiras mesmo. Andam bem empinadas, se exibindo. Muito legal! Homens com um uniforme marrom claro e quepe, devem ser policiais,  ou todo branco, podem ser enfermeiros também, ou médicos. Mas todos os uniformizados parecem bem felizes de ostentar suas roupas.

               Ah! e tem os Rastafari... calças jeans imundas, camisetas regata, muito decoradas, sempre fumando. E os cabelos! Enormes, (des)arrumados em longos rolinhos, que   chegam até a cintura quando soltos, ou então presos em uma grande espiral amontoada no alto da cabeça. Às vezes, muitas vezes, depois de amontoados na cabeça, o cabelo é coberto com um gorro de crochê, multicolorido... um horror! Eles ficam com um cabeção, medonho! Parece um ET de touca.
              Não identifiquei as mulheres rastafari. As que reparei, com o cabelo comprido de rolinhos, usavam roupas normais e limpas. Não estavam fumando. Vi umas mulheres com túnicas coloridas e turbantes. Outras tem lindos penteados com tranças de todos os tamanhos e em todos os formatos. Existem muitos "salões de beleza" e eu entrei em um pra ver. As cabeleireiras estavam fazendo tranças nas clientes.  As mulheres são  bonitas, tem  seios e bunda grandes e cintura bem fina.  Rebolam muito. Quando envelhecem engordam.
               Mas todos se movem seguindo um ritmo interior. Deve ser reggae, um balanço ao mesmo tempo forte e lento. Aliás o ritmo não é tão interior, porque se ouve reggae em todo canto!

               Vi algumas igrejas anglicanas e uma igreja católica, que fica no meio de um cemitério. Vi o mercado, cheio de frutas e, verduras, grande e movimentado, a feira na rua beirando a costa, três palacetes negros (devem ter sido construidos com pedras vulcânicas) que poderiam muito bem pertencer à familia Adms...  só faltava sair um fantasma pela janela. E acho que é só. Tudo muito sujo, muito feio, esgoto fedorento corre a céu aberto nas ruas e num riacho imundo...
              Ha também, os inevitáveis supermercados, iguais em todo o mundo e as lojinhas de bugigangas chinesas, coreanas e etc, que arruinaram  os artesanatos locais, em todos os países.
              Que pena! Um lugar tão bonito e tão maltratado!
              Enfim, o mais bonito de Kingstown é a estrada para se chegar lá. A cada curva se vê uma nova e deslumbrante paisagem!

             Voce já pode dizer eu li na tela da
                                                                     Eulina















sábado, 28 de fevereiro de 2015

PRIMEIROS DIAS


                                                                                                                          27/02/15

            O primeiro dia foi 22/15, domingo. Cheguei no sábado mais ou menos à meia noite, fui recebida pelo Rafael e pela Fabiana, brasileiros que trabalham aqui, falei português, conheci meu quarto e desmaiei na cama. Estava exausta.   

           Nos domingos, o café da manhã é as 9h., e não às sete como todos os outros dias. Rafael e Fabiana vão ás cachoeiras e me convidam. Vou com eles. Uma boa caminhada, por pastos onde ficam alguns cavalos e vacas, plantações de banana e viveiro de plantas, tudo muito bem cuidado, depois entramos em trilhas, no meio do mato. Mato mesmo, igual à Mata Atlântica, mesmo tipo de vegetação, mato subindo a serra  (eu nunca sei direito a diferença entre morro, montanha, monte, serra, colina... ). Vou usar serra, porque a Mata Atlântica sobe a serra do Mar. Então acho que esta subida pode ser uma serra também. 

            E vamos andando, primeiro entre mangueiras enormes, pés de mamona gigante, varios tipos de palmeiras, mamão papaia que parece palmeira e está florido! Mas, a medida  em que subimos,  a vegetação muda, eu não conheço mais as arvores, mas são muito parecidas às do Brasil. Subimos, subimos, atravessamos uma ponte de bambu, subimos uma escada de pedra e chegamos à primeira cachoeira! Bem alta, Bonita, eu fico olhando, enquanto o Rafael entra... fico criando coragem, Quando ele sai, e diz que a água não é geladíssima como as cachoeiras brasileiras, eu acabo de criar  coragem!
           Que delicia!!! A água batendo forte nas minhas costas, escorrendo pelo corpo, o barulho explodindo nos ouvidos!!! Gostoso!!! Subimos mais um pouco e chegamos em outra cachoeira. Mais larga e mais baixa. Entro nessa também. Maravilha!!!
          Viva Yara, Yemanjá, Janaina, Nossa Senhora da Conceição da Praia!!! Viva!!!

            Depois, caminhamos até Chatobelair, que é o vilarejo mais próximo. Durante o caminho, chuviscou e fez sol algumas vezes,  Cidadezinha de praia. Algumas casas mais ricas, com arquitetura inglesa e o restante bem pobre. Chegamos ao único restaurante da cidade. Está fechado. Dizem que só abre quando tem sol e turistas de barco. Rafael vai até uma lojinha próxima, compra salgadinhos, pão, queijo. O dono do restaurante deixa que façamos nosso lanche numa das mesas e nos serve coca cola (detesto coca cola, mas cerveja é proibido para os alunos). A chuva aperta e eu me encanto com a praia de areia negra. Muito vento, as areias negras se misturam com a espuma branca do mar, que fica cinzenta. Estranho! Parece um filme em branco e preto!

          Caminhamos de volta para a escola, e chegamos quase na hora da janta. O primeiro dia, não Podia ser melhor!
                                             Richmond Vale Academy - RVA  (arviei)

            É uma grande fazenda, em cima de um monte, rodeada por pastos, arvores frutíferas, plantações, horta, viveiro de plantas. Descemos por caminhos e trilhas, até a praia, que tem areias finíssimas, gostosas de pisar, porém negras. É exótico. Me contaram que todas as praias da ilha tem areias negras, por causa do vulcão, com exceção dos lugares onde ficam os resorts, que tem praias particulares com areia branca importada da Guiana... que coisa!

            Mas, voltemos à RVA. Arquitetura moderna, com grandes pavilhões envidraçados e rodeados de varandas e jardins. Bem bonito!
            No pavilhão principal,  fica a entrada. È um grande salão comunitário, no qual são feitas as refeições e acredito que é onde devem acontecer as aulas. De um dos lados, ficam os escritórios e de outro a cozinha. Em volta de um jardim interno, ficam pavilhões com grandes e largos corredores envidraçados, com escrivaninhas de alvenaria e portas para os quartos. Os quartos tem duas camas, uma das camas é suspensa, como a parte alta de um beliche, e em baixo fica uma estante. No meu quarto, essa cama não tem colchão. Existe ainda um outro pavilhão que funciona como hotel para hóspedes. Acho que essa é a maior fonte de renda da RVA.

            Os quartos dos alunos, funcionários, e hóspedes são todos iguais. Não sei se o dos professores é igual também. Em cada pavilhão existem dois banheiros, com chuveiro de água fria.  Só tem um chuveiro de água quente. Parece pouco, mas nunca  vi os chuveiros  ocupados. Mas devo considerar que só os brasileiros são vidrados em banho. E somos só tres. Um chuveiro de água quente é mais do que suficiente. além disso, a água fria, não é tão fria assim. Nem a da cachoeira era.

            Os serviços de limpeza e arrumação e cozinha são feitos por todos. Existe um quacro de avisos, com a escala de serviços. Os professores e diretores da escola também participam da escala. Eu vou começar a participar em março. Por enquanto, estou de folga total. Tenho feito caminhadas pelos arredores, vou à praia, fico um tempão de papo pro ar olhando as núvens... Me lembro da infância, na chácaara do meu avô e na fazenda do meu tio. Só que chove mais, venta mais e as nuvens mudam de forma mais depressa.Um carneirinho vira um carneirão, bem depressa e depois chove,.. uma lagarticha vira um crocodilo, depois um dragão, depois chove. E assim, o tempo passa.

             Eu de folga, vejo todos muito atarefados. Não me dão explicação nenhuma, Fico solta. Pergunto coisas pra Rafael e Fabiana, mas eles parecem não saber muito além do que está na escala de tarefas. Eu acho tudo um pouco misterioso e estou ansiosa pelo começo das aulas. Chega de folga.

            O que fica claro pra mim é que aqui é um lugar de estudo e trabalho. É tudo sério. As pessoas são sérias, discutem questões, debatem temas. Acho muito racionais. Sério demais, poderia ser um convento. Sei lá, não quero formar opiniões prematuras, mas estranho muito não poder tomar nem uma cervejinha...  Principalmente não ouvir nem uma piada... a descontração do Brasil faz falta!
        
                                                      Suspense

              Ontem Rafael sumiu! Não apareceu no café da manhã, nem no almoço e nem na janta! Perguntei para algumas pessoas, ninguem tinha visto, nem sabia onde ele estava, nem o que poderia ter acontecido. Nem Fabiana. Mas Fabiana disse que ele é assim mesmo. Some de vez em quando.
              Mas... hoje, quem sumiu foi a Fabiana. Não apareceu no café da manhã, nem no almoço. Fui ao seu quarto duas vezes, bati na porta e... nada.  Agora, é depois do almoço, vamos ver se no  jantar, eles aparecem.
              Este é um cenário perfeito para uma história de Agatha Christie não? Se o tema for o sumiço de brasileiros, eu serei a próxima!

            Voce já pode dizer eu li na tela da
                                                                        Eulina
          

            

                                          












    

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Pânico à distância - Barriga gelada de novo!

         
                                                                                                                             26/02/15

            Hoje, faço uma pausa nos relatos do Caribe.
            Esta noite, por volta de meia noite, Susi me liga pra contar que minha casa foi assaltada.
            Frio na barriga!
            O amigo que ia morar na minha casa durante os meses em que fico aqui, estava levando o restante de sua mudança, no carro da namorada (que também é minha amiga). ele é advogado e estava levando coisas do trabalho, pastas com documentos de clientes, computador com arquivos, pen drives, etc.

            O carro estava cheio de caixas, então eles pararam na rua e estavam descarregando as caixas e levando pra dentro, Os bandidos aproveitaram que tanto o carro como a casa estavam abertos, entraram na casa, armados, amarraram meus amigos e começaram a revirar tudo a procura de dinheiro e joias. Depois de 40 minutos de terror, acabaram por levar a minha televisão, as poucas joias que eu tinha, deixaram todas as coisas dos armários, no chão... e fugiram no carro dela carregando também os documentos dele.

           Susi me relatou isso de madrugada, pelo Face Time, assim que minha amiga ligou para contar. Logo em seguida, foi à delegacia para dar queixa. Na delegacia ficou estabelecido que a formalização da queixa seria hoje às 9h., com a presença do casal de vítimas e da Susi me representando.De madrugada, quando voltou da delegacia, ela me ligou novamente, para contar os detalhes.

            Hoje de manhã, bem cedo, a Susi foi até a minha casa e me mostrou a bagunça pelo Face Time. Um horror! Tudo revirado! Susto, indignação, revolta, impotência, tudo junto, não sei o que pensar, o que sentir, como agir. E eu aqui, sem poder fazer nada... Que noite!

            Não dormi nada! De manhã, medi a glicemia e estava 160! Nunca foi tão alta! Contei só para os brasileiros, mesmo porque não sei contar tudo isso em inglês e não aguentaria ver as caras deles me olhando. Mas precisava desabafar, então contei pros brasileiros. O pior é que acho que esse assunto vai se espalhar, vai correr a vizinhança, todos vão saber que a casa está vazia e casa vazia é um chamariz pra ladrão.

            Hoje à tarde a polícia vai lá fazer perícia. Parece que deixaram bastante rastro.Seria bom que fossem identificados e capturados antes de venderem as coisas. Tudo indica que queriam coisas vendáveis, para fazer dinheiro e comprar droga. São bandidos de ocasião. Entraram e roubaram, porque acharam a porta aberta.

            Minha barriga gelou novamente e este gelo não sei se dá pra derreter. Este gelo é resultante da insegurança, do medo... A casa, o lar é o nosso porto seguro... se não é mais seguro, a barriga gela. E o pior é que aqui de longe, não dá pra fazer nada. Tomara que o tempo se encarregue do degelo.

            Voce já pode dizer eu li na tela da
                                                                    Eulina


   








 

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

DERRETENDO GELOS

                                                                                                                       21/03/15

          Estou no avião, a caminho da ilha de São Vicente.
       
          Céu incrivelmente azul em cima e cheio de nuvenzinhas de algodão em baixo. A temperatura dentro do avião é agradável, mas a minha barriga está gelada. Parte do gelo derreteu quando consegui finalmente embarcar, meu assento é na janela, não fica em cima da asa e do meu lado não tem ninguem, que ótimo! Mas quando penso nas próximas etapas desta longa viagem, a barriga gela de novo.

          O frio na barriga foi crescendo durante os inúmeros preparativos e providências que tive de tomar para me ausentar durante seis meses e morar numa ilha, no meio do mato. Chegou ao auge, quando fechei a mala e minha filha Susi chegou para me levar ao aeroporto. E foi com a barriga gelada que enfrentei o check in, depois tomamos um bom café da manhã, conversando e eu ouvi as últimas de suas muitas recomendações.

           Despedida muito, muito triste, coração apertado, barriga gelada, lá fui eu para as várias filas. Passaporte, cartão de embarque, tira sapato, portão de raio X,  vistoria na mochila, calça sapato, pronto. Tudo OK. Carimbo. Derreteu um gelo. Faltam vários.

           Chegou o almoço: um micro pedaço de filé de frango, bem duro e sem gosto, duas rodelas de abrobrinha, duas rodelas de cenoura e uma lasca de uma coisa verde indecifrável. Arroz mal cosido. Arg! Só não é pior, poque a bandejinha é bem pequenininha... ainda bem que a Susi me preparou um lanchinho. Vou chegar em Barbados às 15 horas e o voo para St. Vincent vai sair só às 20,30. O lanchinho será devorado nesse período.

                                                  Barbados

          Aeroporto confuso. A gente chega num prédio, enfrenta a burocracia da imigração, pega a bagagem e sai na rua. A partida é em outro prédio, depois de uma pequena praça. Vou empurrando o meu malão pesadíssimo.

     Guichê do check in. Neguinha arrogante. Fala tudo bem depressa. Peço pra ela falar mais devagar, ela me olha penalizada e repete tudo do mesmo jeito. Eu continuo não entendendo nada, ela vai repetindo e eu sigo não entendendo. Até que resolvo mostrar minhas coisas. Além do passaporte, a carta da RVA (Richmond Vale Academy), dizendo que sou aluna e vou ficar seis meses, mais atestado de vacina, passagem de volta e...enfim, a pasta com toda a burocracia da viagem. Ela pega a carta, o passaporte e some. Daí a pouco, volta com outra que me olha, não diz nada, fala alguma coisa com a primeira e carimba! Me dá o visto provisório para conexão e o cartão de embarque. Alivio. Mas a neguinha não desiste. Pede pra eu colocar o malão na balança.

 -  Very heavy! -  ela diz.  Fica teclando furiosamente no computador, fala, fala, eu não entendo, mas acho que é excesso de bagagem. aí, ela diz que eu tenho que pagar U$88,00! Pôxa, que absurdo! Dava pra eu esvasiar a mala e comprar tudo lá!

          Ela faz uma conta, imprime e me mostra o quanto eu devo pagar. Mesmo achando absurdo, eu pago, não quero saber de encrenca. Ela me dá a conta e um recibo. Eu guardo. Aí, ela me manda abrir a mala - ai Jesus, o que é agora? - Ela apalpa, tira uma frasqueira, e um saquinho com sapatos. O peso abaixa. Eu fecho a mala e enfio a frasqueira na mochila e tenho que carregar o saco com os sapatos. Vou para a fila de embarque pensando: se ela mandou tirar coisas da mala e aprovou o peso depois, o que será que eu paguei? Olho o meu cartão de embarque: o nome é Martin Williams! Não sou eu! ela que cobre os U$88,00 dele!

          Volto. A moça  não está mais lá. Procuro alguém com cara de chefe. Acho uma negona bonita, com um crachá. Mostro meu passaporte e o cartão do Sr. Williams. Ela não é só bonita é simpática e eficiente também. Vai até um computador, digita um montão, e me dá outro cartão de ,embarque e outro papel identificador de bagagem no meu nome. Garantiu que meu malão chega no meu nome.

- And my money? My U$88,00? - pergunto.
- Did you pay U$88,00?
- Yes, I have the papers -  mostro a conta e o recibo.

          Ela me manda esperar, sai e, daí a pouco, volta com a outra. A outra, desta vez, está toda simpática e sorridente... a arrogância sumiu. Vai direto no caixa, devolve os mesmos dólares que eu havia dado, e me pede os comprovantes. Eu entrego, pego a mala, a mochila, o saco com os sapatos, o passaporte e o cartão de embarque e vou até a negona simpática. Thank You! mas ela não me escuta, já está ocupada resolvendo outro problema. Realmente ela é muito eficiente.

         Mais uma etapa vencida, mais alguns gelos derretidos, mas a barriga continua fria. Agora, são mais ou menos 19h (não tem nenhum relógio nas paredes do aeroporto!) e o voo para St. Vincent é às 20,30h. Já achei o meu gate e está na hora de comer o lanchinho que a Susi preparou pra mim. Delicia!

                                               Saint Vincent

          Avião pequeno, aeroporto idem, não tem relógio em nenhuma parede. Eu também não entendo nada o que me falam, mas mostro todos os documentos de uma vez, Me dão um formulário para preencher, eu digo que que não tinha frutas, nem bombas, nem sementes, nem explosivos, nem carnes, nem armas, assino e pronto. Carimbo de entrada. Mais um gelo derretido.

          Taxi. Dois negões: o motorista e um ajudante. Se fosse no Brasil, eu teria medo, mas aqui... é mais uma missão pro meu anjo da guarda. Temos mais duas horas de viagem pela estrada mais cheia de curvas que já vi. A cada 50 ou 100m, uma curva. Não entendo quase nada do que me dizem. Parece que enchem a boca de uma comida bem grudenta e falam de boca cheia. Eles vão me mostrando coisas que eu não consigo ver porque está tudo escuro. Eles são alegres e falantes. Som do carro: reggae. Muito bom. Primeira surpresa: mão do lado esquerdo! É lógico, foram colonizados pelos ingleses! eu devia imaginar, mas estranho. Direção do carro no lado direito. O motorista para na frente de um bar e o ajudante traz uma coca. Seguimos pelas curvas. Quando chegou no meio do mato, o motorista para, sai do carro e volta abotoando a calça. Seguimos com o reggae tocando, o carro subindo e descendo as montanhas fazendo as curvas numa escuridão quase total.

          Chegamos.É quase meia noite.  O Rafael, um brasileiro que mora aqui, veio me receber Que bom! Ele me mostra o meu quarto, eu vibro, tenho um quarto só pra mim! Me sinto em casa! Finalmente todos os gelos se derretem, minha barriga volta ao normal. Santo Anjo da Guarda, derretedor de gelos na barriga, muito obrigada!
     
          Voce já pode dizer eu li na tela da
                                                                   Eulina















   

                                                                                                                            19/2/2015

                                          FRIO  NA  BARRIGA


          Desta vez, a aventura é numa ilha, e mais longa. Na Palestina era mais perigosa, porém mais curta.

          Daqui dois dias, vou para o Caribe para ficar seis meses, na Ilha de Saint Vincent. Vou fazer um curso de dois meses de Educação Ambiental e Sustentabilidade na Richmond Vale Academy e depois vou trabalhar na comunidade local, durante quatro meses.

          Depois de responder, em meados do ano passado, a um pequeno anúncio no jornal, que dizia simplesmente "Trabalho Voluntário" e dava o site de uma organização internacional.  respondi a vários questionários, vários  testes, redações, uma entrevista por skipe, até que recebi uma cartinha dizendo: Parabéns, voce foi aprovada! Um espanto!

           No início, eu nem acreditava direito, não contei pra ninguém, depois, aos poucos fui ficando mais confiante e contando para os mais chegados. Os mais descolados, achavam ótimo, Os mais caretas me alertaram sobre muitos perigos reais e/ou hipotéticos e me deram muitos conselhos. Afe!

         Os ultimos dois meses foram dedicados a inúmeros, complicados e cansativos preparativos, em relação à manutenção da minha casa, pagamento de contas, declaração de imposto de renda pessoal e da minha micro empresa. De lá me mandaram uma lista enorme de coisas para levar, considerando que vou ficar numa área rural, longe da cidade, então devo levar estoque de coisas para durar seis meses. Alem de tudo isso tive de responder mais testes, desta vez, preparatórios para o curso. Passei o mes de janeiro e fevereiro até agora, ocupadíssima com essas coisas.

     Enfim, tudo pronto, começo a contagem regressiva e a série de despedidas dos amigos. alguns almoços, jantares, happy hours e muitos abraços... como é bom ter amigos!

     Voce já pode dizer eu li na tela da
                                                           Eulina