A MOCHILA
Assim que chegou, ela foi tirando tudo de dentro da mochila. Tirou primeiro uma fraldinha e, num frenesi, tirou uma necessaire transparente com escova de dente, sabonete e desodorante, outra necessaire branca com uma cruz vermelha, presumo que contendo remédios, uma calça comprida daquelas que viram bermudas, duas camisetas, dois pares de meias, um casaquinho, ufa! Mas não parou por aí. Cada vez mais nervosa, toda ofegante, como se estivesse fazendo um exercício muito pesado, continuou a desmanchar a mochila, jogando raivosamente todas as coisas em cima da cama. Guarda chuva e capa, boné, a parte de baixo das pernas da calça que ela está usando...
Seus belos olhos azuis estão embaçados. Serão lágrimas? Será que ela está procurando uma carta de amor? Mas pra que trazer uma carta de amor numa caminhada como esta? Ela continua, cada vez mais aflita.
Furiosamente, tira um par de papetes, um pequeno secador de cabelos, meu Deus, um secador de cabelos na mochila? Só então reparo nos seus cabelos. São longos, negros e estão presos num rabo de cavalo. São lindos. Na realidade, tudo nela é lindo: a boca, os braços e as pernas. Que pernas! São pernas de caminhante. Eu tembém sou caminhante e minhas pernas não ficam assim, que injustiça!
Ela já tirou tudo de dentro da mochila. Agora, sempre arfando pesadamente, está esvasiando os bolsos que ficam do lado de fora. Acaba de tirar um par de gandes óculos escuros, junto com um saco plástico, onde deve haver um sanduiche. Do outro bolso, saiu uma garrafa de água e uma maçã. O que será que ela procura com tanto afinco? Do bolso no topo da mochila, saíram uma carteira, uma pastinha, talvez contendo documentos, um mapa do caminho, todo dobrado e amassado, igual ao meu, um caderninho que parece uma agenda. Pronto. Mochila completamente vazia. Ela vira a mochila de ponta cabeça, segura firme a parte de baixo e sacode com força. Caem tres moedas no chão.
Ela se senta na cama do albergue e chora.
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