quinta-feira, 14 de janeiro de 2016





                                                            RETORNO



                   Já estou em casa, há duas semanas. Difícil. muito difícil.
                   Sempre que volto de viagem, quando desarrumo as malas, já vou guardando tudo nos lugares. Desta vez... esqueci os lugares. Onde guardo isso? Onde coloco aquilo? Meu Deus, o que eu faço com isto?  Demorou pra lembrar!
                   Esqueci que dia passa o caminhão do lixo, esqueci onde é o esconderijo da chave da cozinha, esqueci a minha senha bancária, esqueci o número da placa do meu carro... e assim por diante. Passei uns dez dias dormindo muito, quando acordava, arrumava as coisas e relembrava como era o meu dia a dia. Agora, duas semanas depois, acho que já recuperei a maior parte da memória e não tenho mais tanto sono. Mas estou achando a vida urbana muito complicada.
                   Ainda me lembro de algumas coisas de lá., vou escrevê-as, antes que me esqueça.

                                                                     ***

                   Natal. Neste conjunto de prédios enormes, só nove pessoas. Todos os alunos e alguns professores, foram para as ilhas Grenadinas. Na RVA,  só ficaram Stina e Jesper,  diretores, Else Marie,  encarregada da promoção, David,  encarregado do hotel, quatro hóspedes e eu.
                   Se fizesse sol, eu teria passado os dias na praia. Mas choveu e ventou muito. Não deu pra ir à praia, nem pra ver a lua cheia e as estrelas. Silêncio!
                    A. noite de Natal foi chuvosa. Else Marie e eu arrumamos a mesa, com toalha, guardanapos, pratos todos iguais, garfos e facas, pelo menos parecidos, copos de vidro e flores! Ficou bonito.  Henning, um hóspede, fez a comida: carneiro e frango assados, com batatas e salada. De sobremesa, uma espécie de canjica, com uma calda de maracujá. Not so bad.
                   A mesa era assim: Henning, Stina, Else Marie, David inglês, uma hóspede vincentiana cujo marido estava viajando, um casal de hóspedes alemãs lésbicas, Jesper e eu. A "ceia" de Natal foi servida às sete e meia da noite...
                   Stina disse que passar o Natal com gente desconhecida era muito interessante... eu fiquei só olhando. Depois, ela sugeriu que nós nos apresentássemos e fizemos isso. Igualzinho nos "meetings":      
                   - Eu sou Lina, do Brasil, sou advogada aposentada, estou aqui, porque queria trabalhar com população, fiz o curso sobre o aquecimento global e recebi meu certificado hoje. - perdi a conta de quantas vezes fiz esse discurso, com a diferença de que antes, não havia recebido o certificado.
                  E todos fizeram o mesmo. Eu só olhando. Difícil achar um assunto pra iniciar a conversa. Aí se lembraram de falar sobre a comida. Depois dos bem educados elogios, as alemãs perguntaram se a salada era da horta. Então, Stina sorriu feliz! Sim, todas as verduras eram da horta e a horta era toda cultivada sem pesticidas, de acordo com os preceitos da permacultura... pronto. Estava definido o assunto. Falaram de permacultura o resto da noite.
                   Ai meu saco! Não aguento mais esse papo! Aproveitei para comer bastante. Carne sem pimenta! Maravilha! Mas o carneiro estava muito duro, quase não dava pra cortar. E o frango sem sal. Eu odeio canjica, mas comi a sobremesa, afinal a calda de maracujá disfarçava o gosto.
                   Comi quieta e depois fui lavar os pratos. Natal interessante.
                   Ainda bem que fui cantar para os velhinhos no asilo e para as mulheres, na prisão! Foi esse o meu espírito natalino.

                                                                    ***

                   Contagens. Tudo é racionado, contado literalmente.
                   Os encarregados da limpeza, contam quantos rolos de papel higiênico são usados, por dia.
                   A luz dos banheiros dura cinco minutos. Depois a gente tem que fazer ginástica na frente do sensor . Se estamos no meio do número dois, temos que acabar no escuro, se estamos ensaboados, temos que sair do chuveiro e molhar todo o chão, para acender a luz.
                    Num "common meeting", sugeriram 45 segundos de água para molhar, pausa para ensaboar e outros 45 segundos para enxaguar. Nos dias em que falta água, sugeriram banho de canecas, mas faltou dizer quantas canecas...
                    Laurita era encarregada de contar as galinhas no galinheiro! Tinha que ter quarenta e quatro. Um dia, ela não conseguiu contar, disse que tinha quarenta e quatro e no dia seguinte acharam duas galinhas mortas. O cachorro do vizinho fez a festa. Laurita ficou se sentindo culpada.
                    Então, deram a ela outra função: a de colher verduras para a salada. Como o espinafre estava acabando, ela tinha que contar quantas folhas colhia!
                    Durante as refeições, ovo, bolinhos, pedaços de carne ou de alguma torta era sempre um por pessoa. Só podíamos repetir, depois que todos comessem. Aí, tinha gente que comia correndo, para poder repetir, antes que a comida acabasse. Depois, tinham dor de estômago.
                    Mas era assim! Felizmente, com exceção dos rolos de papel higiênico, todos perdiam as contas. E o espinafre quase acabou. Restaram apenas folhinhas bem novinhas que não dava pra comer.
                                                                    ***

                     Love.  Stina e Yesper tem um cachorro. Pastor alemão. Muito simpático, chamado Milo. E cuidam muito bem dele. Mas tratam mal todos os outros cachorros que aparecem por lá.
                     Um dia, apareceu um vira lata bem magro, e bem brincalhão, desses tipo "cão sem dono" que abana o rabo pra todo mundo, na esperança de achar um dono. E achou vários, todos os alunos gostaram dele. Mas os diretores não. Alimentamos o cachorro durante uns dias, na esperança de que autorizassem a ficar com ele, mas o máximo que conseguimos, foi que a adoção do cão fosse assunto de um "common meeting".
                      A discussão demorou mais de duas horas. Walid, o jordaniano disse que assumia a responsabilidade de educar o cachorro.   Disse também que se o dono aparecesse, nós entregaríamos o cão, mas que nós cuidaríamos dele enquanto ele estivesse aqui. Quando Stina percebia que se o assunto fosse colocado em votação, ela ia perder, dizia que tinha mais uma dúvida, e a discussão se arrastava por mais tempo, com muitos argumentos de ambas as partes. O principal argumento da Stina era que os atuais alunos vão embora depois de seis meses e não sabíamos se os próximos assumiriam essa responsabilidade.
                       Eu estava quieta, quase dormindo, para disfarçar minha indignação, diante de tanta mesquinharia. Afinal o que custaria manter mais um cão? Até que não aguentei.
                       - May I say something? - depois do silêncio, eu disse: I have a proposal. We all take care of the dog while we are here. When Walid leaves, he promises to find an owner for it.
                       Walid concordou e a proposta foi votada e aceita pela maioria.  Ufa! Já eram quase onze horas, Pra quem acorda às seis e trabalha pesado durante todo o dia, era muito tarde.
                        Foi uma vitória! Ficamos todos felizes.
                        Depois de muitas consultas a todos os colegas, Walid batizou o cão de Love!

                                                                    ***
                   
                      Ontem fui ao médico. Todos os índices de glicemia, colesterol, vitamina D, triglicérides perfeitos. E eu já ganhei dois quilos. Daqui dois dias, vou ao ortopedista. quero saber exatamente o que aconteceu com minha perna.

                                                                   ***

                        Pouco a pouco, estou recomeçando minha vida de aposentada. E já estou pensando em ir a um outro programa de trabalho voluntário. Desta vez, no Brasil. Mas antes, vou sossegar o facho aqui em são Paulo, por um tempo, enquanto junto dinheiro para a próxima aventura.
                        Agradeço a todos que leram minhas histórias e especialmente àqueles que comentaram.
                        Prometo voltar a escrever toda vez que tiver alguma coisa interessante pra contar!


                        Voce já pode dizer eu li na tela da
                                                                                    Eulina

                                                      











     







sexta-feira, 8 de janeiro de 2016






                                                                 A VOLTA


                      Estou no avião. Depois de dois dias chovendo e ventando muito, hoje está lindo!
                      Vejo o céu bem azul e filas e filas de nuvens de carneirinhos que fazem sombra no mar. Parecem listras. Céu listrado de nuvens e mar listrado de sombras. Meu sobrinho piloto já deve ter visto isso.
                      Enquanto estou voando, fico me lembrando de momentos vividos intensamente.

                                                                      ***
                     Os diretores vieram se despedir de mim. Abraço em todos. Afinal, depois de tantas aventuras, desventuras e peripécias,
                     - I had a great time!

                                                                      ***

                      Olho bem a estrada. Já me acostumei com a mão do lado esquerdo. Não assusto mais. Quero levar impressa na minha retina cada praia, cada montanha, cada vilarejo, cada varanda cheia de galos de gesso na mureta. Quero guardar no melhor "chip" da minha memória, todas as crianças limpinhas e cheias de trancinhas, com a cara bem preta e o sorriso bem branco.
                      Da "soca music", quero guardar só o rebolado... o som, acho que vou esquecer rápido. Ah!... e o cheiro de marijuana! A comida quero esquecer o quanto antes. Afinal, são oito quilos a menos de motivos para não lembrar da comida.
                      Acho que muita gente já tentou descrever a cor do mar do Caribe... e não conseguiu. Não sou eu quem vai conseguir! Na verdade, o mar do Caribe é indescritível.
                           
                                                                   ***

                      Selly, Francisco e Maira estão me levando para o aeroporto. Me perguntam:
                      - Are you happy to go home, or sad for leaving St. Vincent?
                      - Today I am only sad.

                                                                     ***
                      Comento com Selly:
                      - I think I am a privileged person to have lived all these experiences at age of 72. It was magic!
                      -  No! It was not magic! You was blessed! A blessing is a  God's gift!
                      Nó na garganta.

                                                                    ***

                       Francisco não vai até o aeroporto. Fica no caminho, na casa de um amigo. Último abraço. Céu estrelado de Bequia.  Silêncio compartilhado. Luzes e cores inesquecíveis.
                       - See you someday, somehow, somewehre!
                       Outro nó na garganta.

                                                                   ***

                       No aeroporto, o ultimo abraço em Selly e Maira.
                       - I'll  wait for you in Brazil!
                       Mais nó na garganta.

                                                                 ***
                      "Pena, que pena que coisa bonita, diga
                        qual a palavra que nunca foi dita, diga
                        qualquer maneira de amor vale a pena,
                        qualquer maneira de amor vale aquela
                        qualquer maneira de amor valerá!"
                                                                          Milton Nascimento

                                                                 ***
                       Engraçado... do avião, não vemos o horizonte...  o mar se mistura com o céu. Será que é sempre assim, ou só hoje?  Meu sobrinho piloto deve saber.
                      A comida da Gol veio. Decepção. Gosto caribenho. Frango com arroz, curry e pimenta. Arg! O consolo é que é a última vez. De sobremesa, um tijolinho de um creme branco de gosto indecifrável coberto com uma calda com um leve resquício de gosto de caramelo. Comi tudinho. Estava com fome. Depois da RVA, sou capaz de comer qualquer coisa.

                                                                   ***
                     
                        Sampa, finalmente! Passaportes com chip, passam pela imigração eletronicamente.
                        - O meu passaporte tem chip? - pergunto pra moça. Que maravilha poder perguntar coisas em português!
                        - Tem. Coloca ali no leitor e depois põe os pés na marca do chão.
                        Meu Deus! Que coisa, estou no primeiro mundo! Ou pelo menos, nesta parte do país, é primeiro mundo! Não há filas para brasileiros com  chip no passaporte
                        Mas para estrangeiros e pessoas com passaporte antigo, há longas filas.

                                                                   ***    
                                                             
                         Choveu, alagou tudo, minha filha não foi até Guarulhos. Foi me pegar em Congonhas. Eu me maravilho com o ônibus para congonhas. Ar refrigerado, poltronas reclináveis, mesinhas,        " wi-fi free", música suave, tomadas para recarregar o celular... mais primeiro mundo!

                                                                  ***

                         Abraço na Susi! Ai, como eu sonhei com esse abraço! Gostoso, apertado, para matar a saudade!
                         Olho a cidade. Já é noite. Carros, luzes, gente branca, trânsito... pareço caipira!
                         Susi encheu minha geladeira e o armário da cozinha com comidas que eu gosto, encheu as fruteiras com frutas que não são goiaba e carambola!
                         " Home sweet home" que delícia! Agora estou feliz.


                      Voce já pode dizer eu li na tela da
                                                                              Eulina















                                                                 

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016





                                                 

                                                          AINDA A DESPEDIDA



                          Todos os professores da RVA são jovens  (a diretora tem 48 anos), e dão aulas sobre tudo. As aulas técnicas  são documentários sobre os problemas climáticos e aquecimento global e fim do mundo, Os professores colocam um filme no telão, os alunos assistem, depois debatem o tema.                                Então os professores não são propriamente mestres no sentido acadêmico da palavra. São mais âncoras do debate e promotores de ações referentes ao assunto. Por exemplo, quando se trata de plantar mudas de árvores, eles coordenam as propostas de planejamento, tipo que dia, que horas, quem faz o quê, etc.
                          E existem ainda outras aulas, sobre "maneiras de viver', como práticas de yoga, minimalismo, como se reconciliar com as lembranças do passado, como agradecer... e coisas assim.  
                          O meu professor, "team leader", como eles chamam é jovem (28 anos), venezuelano, e fez o curso preparatório para ser líder, na RVA, não faz muito  tempo. Acho que a minha turma foi a primeira que ele liderou. E deu muito trabalho!
                         Ele me disse que o seu maior objetivo na vida é o crescimento pessoal, em todos os níveis: intelectual, emocional e espiritual e qualquer outro tipo que pintar... Vou postar agora o discurso que o ele fez e leu durante a minha festa de despedida:

                          "Lina, what an honour to meet such an amazing human being.
                          This  has been one of the largest learning moments I've had in my life and you have been definelely a good contributer to the process.
                           As I've told you before, I admire you very much. I think that to be faithful to your beliefs is one of the most beautiful qualities that anyone can have. You certainly have that.
                           It's always noteworthy for me, to see you speaking up and fighting for yours rights,
                           Another thing I admire you for, it's the dedication to work towards the ones who need it most, the poor. Thanks!
                           Example in arts, your drawings and way of dancing are always pleasant to see.                                      Your kindness and how much you care about people are unmeasurable.
                           Your responsability, team work and organization skills are impressive.
                           There is a side of you that I am so glad to have met which is your spitituality, (at least a little bit). Thanks for all the stories and knoledge you brought to me.
                     
                            You were supposed to be my student, but you end up being my teacher.

                            I will always appeciate all the knoledge, and specially the love you gave to me.
                                         For this, and much more...
                                                                    Thank you
                                                                          It's been a real pleasure
                                                                                            With lots of love
                                                                                                                       Francisco"

                           Quando ouvi tudo isso, fiquei até assustada! Será que tudo isso é pra mim mesmo? Será que eu sou assim tão... sei lá...   Será que eu mereço tanto?
                           Depois eu pedi e ele passou a limpo o discurso e eu transcrevi igualzinho, com os espaços e linhas, do mesmo jeitinho que ele escreveu. Vou me lembrar pra sempre dele e do céu estrelado na ilha de Bequia.

                   
                             Voce já pode dizer eu li na tela da
                                                                                       Eulina

                           
                         






















                         

sábado, 26 de dezembro de 2015







                                                                    "PIPLO"


                    Não sei como se escreve, mas é como eles pronunciam"people". Vou tentar contar alguma coisa sobre cada um dos diretores e funcionários administrativos. E sobre os atuais estudantes.

                                           Diretores, Professores e Funcionários

                    Stina e Jesper. Noruega e Dinamarca. São os diretores São marido e mulher. Controlam tudo. Dirigem a escola, o hotel, a fazenda, a fábrica de suco, as plantações e os animais, tudo  com mão de ferro. Trabalham muito, exigem muito de todos os trabalhadores voluntários ou não, e dos estudantes. Conseguem manter tudo funcionando. Às vezes funcionando mal, mas sempre funcionando. Eu desenhei uma "schedule" para Stina e o sino que chama os alunos para as atividades, para Jesper.
                     Else Marie. Encarregada da promoção. Dinamarquesa.  Sua função é conseguir novos alunos e novos trabalhadores voluntários. Fica todos os dias num escritório, em frente ao computador. Adora brasileiros, sempre tem um ajudante voluntário brasileiro(a). Ela gosta de fazer caminhadas. desenhei um coqueiro, que está em todas as trilhas.
                     David. Professor. Polônia. Dá aulas chatas, sobre o fim do mundo, aulas cheias de estatísticas. Está sempre lendo, pesquisando. Engole as palavras quando fala. Eu dormia em quase todas as aulas dele. Está sempre com uma caneca de café nas mãos. Desenhei a caneca.
                     David inglês. Responsável pelo hotel e pelos hóspedes. Trabalha muito. Mas vai nadar quase todos os dias depois das quatro horas. Pra ele fiz um par de pés de pato e um óculos de mergulho.
                     Mahsa, iraniana. Gerente geral. Atualmente é lider do grupo de luta contra a pobreza. É muito simpática, mas muito exigente com o trabalho, com os horários, com a limpeza, etc. Eu fiz uma mandala colorida
                     Keke, americana,  Lider do grupo contra o aquecimento global. Candidata a professora. Super alegre, simpática comunicativa. Se atrapalha com o excesso de regras.  Namora a Mahsa. Desenhei o seu grande sorriso com um aparelho azul nos dentes.
                     Miguel. Colômbia. Vegano. Seguidor de todas as regras. Brigou muito comigo. E eu com ele. Mas era bom professor, deu aulas interessantes. Há um mês atrás, adoeceu, emagreceu e foi embora sem se despedir de ninguém. Acho que era um pouco louco. Compulsivo.
                     Francisco, venezuelano. O líder do meu grupo. Cheio de energia, e bom humor. Canta, dança, toca violão, cozinha, dirige a pick up, faz yoga, capoeira, trabalha na horta, cuidou da colombiana doente, me levou ao médico pra ver o que tinha acontecido com minha perna.  Super paciência. Um grande ser humano. Mas, um pouco confuso nos planejamentos. Juntava com a minha dificuldade de entender, e ficava tudo muito confuso. Desenhei o céu estrelado de Bequia.
                     Jona, sueca. Cuidava dos cavalos. Voluntária.Toda lindinha! Enfeitava a mesa com flores. Namorava o Francisco. Desenhei um carrinho de mão, cheio de esterco, que ela vivia transportando para fazer o composto.
                     Selly. Vincentiano. Também pau pra toda obra. Canta, dança, toca tambor, trabalha nas plantações, dirige pick-up, dá aula de história de St. Vincent, E o mais importante: conhece toda a população do país. Ele é a ponte entre a RVA e o povo de St. Vincent. Sem ele, a RVA não funcionaria. E o único que não mora aqui. Mora com a mulher e os filhos em Rose Hall.   Fiz um tamborzinho pra ele.
                     Monique.Vincentiana. Funcionária. Cuida da cozinha. Faz comida com pimenta demais! No começo só rosnava pra mim. Depois ficou minha amiga, diminuiu a dose de pimenta. Eu acho que nem ela gosta da comida que faz, porque traz marmita de casa. Fiz um caldeirão.
                      Fire. Vincentiano. Funcionário.  Rastafari e vegano.  Cuida da horta, do pomar, do jardim e dos pastos. Era muito mal humorado. Depois, começou a paquerar a Ana, ficou todo sorridente. Desenhei uma  touca de crochê, bem colorida, que os rastas usam pra cobrir o cabelo.
                     Susy. Assessora da Else Marie. Voluntária. Lindona. Parece pintura de  Di Cavalcanti. Mulherão! Coração enorme também. Ela é de Salvador e mora em Brasília. Espero encontrá-la muitas vezes ainda. Ganhou um berimbau.
                    Fabiana e Rosi. Também assessoras de Else Marie. Amba voluntárias, de Belo Horizonte. Super simpáticas. Com Fabiana, eu inaugurei "a hora da fofoca". Continuei com Rosi e por último com Susy. Espero reencontrar todas no Brasil. Elas não estão mais aqui, não ganharam desenhos.
                    Tyson. Vincentiano. Funcionário. Um Apolo negro. Beleza pura! Trabalha nas construções, com tratores, e ajuda nas aulas de mergulho. Sabe pescar com as mãos e consegue resgatar sozinho, um bote naufragado. Diz que está apaixonado pela Susy. Deixei com Francisco o desenho de um barquinho, pra ele.

                                                                  Alunos

                      Climate Complience Conference. Foi o curso que fiz. De julho a dezembro. Nunca entendi o que significa esse nome, apesar de todas as explicações. O curso começou em julho e acabou em dezembro.
                      Kelly, Maira e Laura. Colombianas. Jovens, alegres festeiras, trabalharam muito no sistema de filtragem de águas servidas, foram a muitas festas, quebraram as regras. Tiveram que ir embora. Laura ganhou uma carinha sorridente, Kelly uma mandala e Maira um jeans todo rasgado.
                      Nadhia. Companheira e amiga. Inventamos o sabão. Partilhamos muitas coisas, até que se apaixonou. ficou de cabeça virada e foi embora. espero encontrá-la no Brasil.
                      Fernanda, colombiana, Max, alemão, Raquel, vincentiana e Tosh indiano. Ficaram durante pouco tempo. Fernanda descobriu que estava grávida. Raquel e Max, fizeram o compacto de um mês. E Tosh não aguentou as regras.
                       Sixia, chinesa. Pessoinha adorável. Todos gostavam dela. Ela começou em março, junto comigo. Logo nos tornamos "avó e neta". Eu voltei para o Brasil e ela fez o curso praticamente sozinha e  terminou em agosto. Ainda convivemos mais dois meses. Dei pra ela um coqueiral.

                                                                       ***

                       Fight With the Poors. Outro nome esquisito. Começou em setembro, vai até fevereiro, depois todos passam  seis meses no Ecuador ou Belize, trabalhando com comunidades locais, voltam e passam  mais seis meses na RVA.
                       Walid, Baha e Manal. Vieram da Jordânia. Ficamos amigos instantaneamente, no momento em que contei que tinha ido para a Palestina. Walid é um crianção, ganhou uma pipa, ou papagaio. Baha tem o cabelo engraçado. Desenhei uma cara em branco, com o cabelo em volta. Manal é toda doce, desenhei florzinhas. Baha e Manal são um casal.
                        Mariana, do Mexico. É artista. Desenha e pinta muito melhor do que eu, gosta de música clássica, teatro, dança... desenhei uma palheta cheia de tintas e uma clave de sol. Está namorando o Walid.
                        Lilly, norueguesa. Bem bonita e super esportiva. Me dava um abraço todas as vezes que me via. Toma conta da lojinha. Ganhou o desenho da campainha da lojinha.
                        Nelson, americano de Los Angeles. Gosta de trabalhos manuais e faz o melhor pão da RVA. Fica na rede todo o tempo livre. Fiz uma rede pra ele.
                        Estes, ainda não foram pro Ecuador e Belize. Vão daqui tres meses, ficam seis, trabalhando com o povo de lá, e depois voltam para mais seis meses aqui.

                                                                      ***

                        A seguir, vou falar dos que já voltaram de Belize:
                        Alessia, italiana, bonita e exuberante. Arranjou um namorado vincentiano e teve que brigar muito. Pra ela não dei um desenho. Dei uma pulseirinha artesanal, que ela me ensinou a fazer.
                        Anna. Húngara. Loirinha, quietinha, namorava o David.  Escreveu um conto me deu pra ler. Eu desenhei a heroína do seu conto.
                        Keith, da Colombia. Sério e eficiente, cabelo moicano.  Usa um mini poncho. Desenhei o mini poncho
                        Thomas, dinamarquês. Esteve com Keith em Belize. Gosta de fazer fogueira na praia nas noites de lua cheia.Desenhei uma fogueira.
                         Finalmente,
                       Jocelyn, chilena e Zdenka, eslovaca. Veganas. Jocelyn era festeira e Zdenka namorava o Fire.  Estão atualmente no Ecuador.  

                                                                              ***

                         Climate Compliance Conference, de novembro. Vai até março.
                         Lukas e Melissa. Ele alemão e ela colombiana que mora na Espanha.  Eles se conheceram e começaram a namorar no Brasil e em português. Ambos alegres, muito inteligentes, dedicados, cheios de propostas.  Ele toca violão e ela pandeiro. Fiz,  um violão e um pandeiro.
                         Dominik , alemão. O caçula. Só dezoito anos. Super sorridente, super companheiro. Nunca penteia os cabelos. Desenhei a cara em branco, com os cabelos lourissimos e desgrenhados.
                         Markus Todo longilíneo, parece uma quadro de Modigliani. Tem um vozeirão e canta durante o banho. Desenhei o seu chapéu de palha, que era durinho e está todo amarfanhado.
                         Ana, do Ecuador. Personalidade forte. Bonita e séria. Mas sabe muito bem rir e participar de uma brincadeira. Desenhei seus olhos. Ela e Fire estão se paquerando.
                          Hafiz do Sudão, Gaylene, vincentiana que mora no Canadá, e Justin americano de Minesotta. ficaram durante um mês e partiram por motivos diversos. Foram presenças marcantes enquanto estiveram aqui.

                                                                          ***

                            Ficamos todos amigos. É extraordinário pensar que todo esse povo, de tão diferentes lugares,  línguas, costumes, tradições e idades possa conviver tão respeitosa e pacificamente, fazendo  todas as coisas junto, comendo pouco e trabalhando muito!
                           É inacreditável! E eu, que tenho fama de ser tão encrenqueira, fiquei amiga de todos!
                           E do meu grupo, fui a única a ter o Certificado.
                           Maravilha!

                          Voce já pode dizer eu li na tela da
                                                                                 Eulina
                         
                       


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quinta-feira, 24 de dezembro de 2015







                                                             ROLLING STONE


                    Não tenho mais tarefa nenhuma, nem aulas, nem "schedules", nem "meetings", nem DMM, nem "kitchen day", nem área de limpeza, nada, nada! Totally free! Maravilha! Fico na rede...
                    Os grupos tem atividades natalinas. Eu participo.

                    Rose Hall. Pela manhã, fomos limpar e enfeitar o salão do centro comunitário. Repetiu-se a cena do dia da limpeza das praias. Nós trabalhando e os marmanjos locais, sentados nas cadeiras olhando.  À tarde ficamos ensaiando uma apresentação natalina para a comunidade. Vamos contar a história do nascimento de Cristo, entremeada de canções de Natal, cantadas em inglês, espanhol, alemão e português.
                    À noite, fomos à festa.  Salão arrumado, cheio de luzes. Chegam DJs que colocam "soca music" no volume mais alto. Nós estamos prontos, mas as cadeiras não estão arrumadas. Estão todas encostadas nas paredes laterais e no fundo do salão. E ocupadas por crianças. Chamamos as crianças, mas elas não vieram.  Chamamos outra vez e nada. Os DJs desligam o som, mas as crianças continuam falando alto. Pedimos silêncio, em vão. então resolvemos começar assim mesmo. Contamos a história, cantamos, fizemos tudo o que ensaiamos, debaixo da maior algazarra, com o salão vazio, as cadeiras com as crianças encostadas na parede e os adultos na varanda,do lado de fora, olhando pela porta. Foi triste. Muito triste.
                     Jamal.  Mas teve uma coisa boa. Todas as vezes que fui a Rose Hall, encontrei um rapaz, com algum grau de deficiência mental, que sempre ficou cuidando de mim. Quando fomos limpar o rio, caminhando no meio do mato, ele ficava perto de mim e me ajudava nos trechos mais difíceis. Nas subidas e descidas, ele me dava a mão, me oferecia água, perguntava se eu estava bem... eu gosto dele. Então fiz pra ele um marcador de livros, igual ao que fiz pra todos, com o desenho de um barquinho.
                      Logo que cheguei, ele veio me cumprimentar, e eu dei o presentinho. Ele olhou com o rabo dos olhos e saiu correndo. Algum tempo depois, ele veio até a cadeira em que eu estava sentada, colocou um pacotinho de biscoito no meu colo e saiu correndo de novo. Eu queria muito poder abraçá-lo e agradecer, mas ele fugia sempre que  encontrava comigo. Aproveito agora, para mandar um abraço e um beijo telepático pra ele.
                    Foi a única coisa boa que aconteceu na festa.

                                                                 ***
                    Garden of Eden.  Dia seguinte eu fui, com um dos grupos, cantar num asilo. Lugar lindo, um casarão azul, em cima de uma montanha. Chegamos e uma enfermeira simpática nos conduziu até a varanda onde estavam as velhinhas. Começamos a cumprimentar uma por uma e nos emocionamos de ver seus rostos tortos, enrugados, com olhos vazios, se iluminarem em sorrisos toscos e desdentados... mas lindos! Após as apresentações, começamos a contar a história e a cantar, olhando para suas caras animadas, e suas mãos batendo palmas. Uma delas, parecia a mais jovem (noventa e um anos!) levantou-se e começou a dançar ao som do Jingle Bells. Nó na garganta! vontade de abraçar todas!
                      Quando fui cumprimentar uma delas, ela me disse:
                       - You are an ancient too! I can see that you are ancient!
                       - Yes, I am! - Respondi rindo.
                       Acabamos de cantar para as velhinhas e duas estudantes ficaram com elas jogando bingo enquanto nós nos dirigimos ao salão onde estavam os velhinhos.
                       Outro nó na garganta. Rostos desfigurados pelo tempo, quase imóveis, se iluminavam. Os que conseguiam, sorriam com a boca também. Mas todos os olhos estavam sorrindo. Exceto um senhor cego, que pegava em nossas mãos. Eu pus a mão dele em cima do meu coração e ele sorriu.
                        Quando um dos velhinhos,(o que parecia mais velhinho), ouviu uma estudante tocar Silent Night, na flauta, ele começou a cantar. Com sua voz tremula, mas afinada, cantou tudinho, até o fim. Enquanto isso as lágrimas rolavam dos meus olhos. E até agora, enquanto escrevo meus olhos fabricam lágrimas. Eu olhava pela janela, via a montanha verde e o mar do Caribe..., tinha que espantar o nó da garganta, pra poder cantar quando chegasse a hora.
                         Enfim, cantamos tudo. Um dos velhinhos que não podia sair da cama, falava Aleluia, Aleluia! e eu concordei Aleluia, Aleluia! Ficamos todos tão felizes!

                                                                      ***

                           Prisão. Dia seguinte, escolho ficar com o grupo que vai à prisão feminina. Seguimos instruções: calças compridas, sapatos fechados, ombros cobertos. Bolsas e pacotes na portaria. Os presentes que levamos, tiveram que ser entregues para a policial.
                          Subimos uma escada e chegamos a uma salinha, com algumas cadeiras e dois bancos. Só existem seis presas. Nós nos sentamos nas cadeiras e elas nos bancos. Elas são jovens e sorridentes, bem simpáticas, estão todas com um gorro de Papai Noel.  Vieram vestidas para a ocasião! Tem só uma que é mais velha. Ela se senta num canto e fica olhando pra parede o tempo todo. Que crime será que cometeram?
                           Cantamos tudo, elas bateram palmas e acompanharam a música o tempo todo.  A certa altura, uma delas se levantou e voltou com um caderno. Abriram o caderno e começaram a cantar. Negras tem belas e fortes vozes. Então cantaram Adeste Fidelis, no dialeto vincentiano. Lindo! Quando acabaram eu criei coragem lembrei dos meus tempos de coral e fiz o coro em latim, sozinha. A mexicana não se conteve, foi sentar no banco e cantar junto com elas.
                           Eu me senti em estado de graça. E todos se sentiam assim.
                           Ficamos sabendo que todas as jovens se envolveram com tráfico de drogas e a mais velha que olhava pra parede, matou a própria filha!  Que coisa! Por que será que ela fez isso? Quanto sofrimento!
                           - Pelo menos, hoje ela cantou um pouco! - eu pensei.

                                                                   ***

                           Esses últimos dias, fora os melhores aqui. Eu estive sempre rodeada de amigos. Muito presentinhos, muitos abraços, manifestações de carinho. Faz tão bem pra minha alma solitária... E o fato de não ter nada definido, de poder escolher o que fazer a cada minuto, me faz sentir "like a rolling stone". Eu vou na onda, vou onde a onda me levar. Vou sem medo. E eu confio nas pessoas em volta.
                           Como é bom poder confiar!  Eles me aceitam, mesmo sabendo que eu nunca sei nada direito, mesmo sabendo que eu não consigo trabalhar com computadores, ou ficar acordada durante um documentário ou uma aula chata, mesmo sabendo que eu vou esquecer metade das coisas que me dizem... eles me  respeitam, aceitam e acolhem... É muito bom.
                             Embora eu saiba que provavelmente não verei novamente nenhum deles, apesar das promessas de encontros futuros, o  profundo sentimento de amizade que tive  aqui, vai me acompanhar pra sempre.
                            Pra sempre, eu vou saber que por um tempo, eu fui amada em St. Vincent and Grenadines.

                             Voce já pode dizer eu li na tela da
                                                                                      Eulina












domingo, 20 de dezembro de 2015






                                                                       MOMENTOS



                     Aniversário. A festa foi linda! Fomos às quatro e meia da tarde, carregando a tralha toda. Eu imaginava que a festa seria na praia de Richmond, mas não foi. Foi em outra praia. Fomos de barco, apreciando a paisagem e sentindo aquela sensação de liberdade, quando o vento bate na cara e o horizonte parece acessível. Dá vontade de sair voando do barco!
                     Praia linda, areia preta, rodeada de montanhas cobertas pela floresta. Coqueiros, rochas nos cantos. O mar bate nas rochas e forma cavernas. tudo perfeito. Os rapazes fazem fogo, colocam o peixe pra assar, enquanto nós, as mocinhas vamos pra água. Depois nos sentamos pra ver o por do sol. Tudo lindo, maravilhoso. A meia lua começou a brilhar e as estrelas apareceram.
                      Os vincentianos trouxeram o som. Soca music. Enquanto o peixe assa, nós rebolamos na areia.
                      Em matéria de velhota assanhada, eu ganho qualquer parada! Rebolei muito!
                      Depois, o peixe com banana assada. Delícia! Ainda dançamos mais um pouco, desta vez com música latina, salsa, cumbia, lambada... danço até minha perna pedir pra parar. Fico deitada na areia, feliz... Como seria bom se a vida fosse sempre assim!  Tudo lindo, tudo em paz... Mando essa energia boa para minhas filhas... pra toda a familia... pra todos os amigos... pra todo o Brasil... pra todo o mundo!
                       Voltamos cerca de meia noite. Lua alta, estrelas, pusemos tudo no barco e viemos. Por alguns momentos choveu, uma garoa fina, que se misturou aos pingos de água do mar. A cada marola, a proa do barco levantava e caía dando um tapa na água e um tranco na bunda. Todo mundo ria feliz. Fomos todos dormir em estado de graça!

                                                                            ***
                       Festa de despedida. Um dia antes, o "common meeting". Muitas atividades, Programação intensa, tarefas pra todo mundo," skedule" lotada, todos os quadradinhos preenchidos, e eu injuriada! Como vou embora na semana que vem, eu não consto mais da programação... E agora? Passei a semana toda desenhado lembrancinhas pra todos... e não vou ter a chance de entregar? Todo mundo teve festa de despedida, menos eu?  A Maria Eulina de cinco aninhos, que mora dentro de mim, se manifestou:
                       - May I say something?
                       - Yes!
                       - As everybody knows, I'll go away next week. I see this skedule completely full and I want to know when will I have an opportunity of saying goodbye to all my friends?
                       Eles riram, como sempre riem das asneiras que eu falo:
                       - Here Lina! - e apontou um quadradinho vazio - Suturday by night! But it is a surprise! Pretend you don't know!
                       - OK, OK, OK, I don't know!

                       E a festa foi a melhor de todas as festas da RVA! Primeiro os filmes, com os melhores momentos, depois discurso emocionante do meu professor e da diretora.. Que coisa, nós brigamos tanto, e ela vem fazer discurso em minha homenagem! Mas, como sempre, eu entendi só pela metade. Depois recebi presentes. Flores, um desenho feito pela mexicana, um CD dos tocadores de tambores.                        Então, foi a minha vez! Eu disse que tinha preparado um discurso, mas esqueci todas as palavras... Agradeci a todos e distribuí os  marcadores de livros com desenhos personalizados. Abracei e fui abraçada, um por um, e adorei ver os sorrisos e comentários, quando viam os desenhos!
                       Depois, teve bolo biscoitinhos e o show de tambores! Tocaram algumas músicas de Natal primeiro e depois o ritmo alucinante da música daqui. Todos dançaram,  inclusive eu, que pulei e rebolei tudo o que consegui! Quando minha perna doeu demais, puseram uma cadeira no meio da roda e eu continuei dançando com uma perna no chão e outra em cima da cadeira. Foi hilário, porque vários vieram colocar uma perna na cadeira também... parecia um novo passo de música. "A soca da perneta". E depois de tudo, o casal "quase brasileiro" trouxe o violão e o pandeiro e ouvimos samba.
                        A noite só acabou, depois de um passeio noturno para apreciar a  meia lua e as estrelas da noite caribenha...
                        Mais uma vez, eu mandei toda essa energia pro mundo!

                                                                      ***

                        Agora, acabaram-se de vez as minhas tarefas. Posso ir a praia na hora que quiser, posso passar a tarde toda na rede, posso arranjar carona e ir pra Chateaubelair ou pra Kingstown... até o dia vinte e seis, estou de férias.
                       
                        Fico pensando em tudo o que passei aqui.
                        Vim com a expectativa de trabalhar para o povo. Trabalhei para um hotel fazenda que pretende ser orgânico e sustentável.
                        Vim achando que ia aprender inglês, aprendi a usar o google tradutor.
                        Vim esperando um grande contato com a população local. Fiquei aqui, confinada nesta bolha.
                        Vim acreditando que faria um curso e dormi em quase todas as aulas.
                        Vim para exercer a minha curiosidade e exerci a minha paciência.
                        Vim "gordinha", vou embora "magrela".

                         Em compensação...
                         Fui à praia quase todos os dias!
                         Saltei do penhasco de sete metros!
                         Conheci quase todas as escolas deste país!
                         Nadei nas mais belas praias!
                         Fogueira na praia e banho de mar nua, nas noites de lua cheia!
                         Noite estrelada na ilha de Bequia!
                         Muitas risadas!
                         Muitos amigos, de muitos países, muitas línguas, muitas culturas!
                         Comidas secretas, fofocas no quarto!
                         E o melhor de tudo, consegui me adaptar a todas essas situações!
                       

                         Enfim, apesar de todos os problemas, apesar da  pimenta, da falta que faz um bife, da sensação de estar presa, da leptospirose, dos mosquitos, do excesso de reuniões, das brigas por liberdade, da minha perna estropiada, eu posso dizer:  I had a great time!

                         Voce já pode dizer eu li na tela da

                                                                                      Eulina









                   











quinta-feira, 17 de dezembro de 2015






                                                                OUTRA VEZ!



                    A RVA funciona sempre com dois cursos. Um, com a duração de seis meses, sobre a mudança climática no mundo, que é o que eu estou acabando de fazer. Outro, com a duração de dezoito meses, sendo seis passados aqui, seis em outro país e depois mais seis aqui. Ao final, ganhamos um Certificado.
                    Ambos os cursos devem ter ao início, entre dez e quinze alunos e tem como objetivo "ajudar" países pobres a enfrentar as mudanças climáticas e "lutar contra a pobreza".
                    Pois bem. O meu grupo, começou com dez pessoas. Logo no início, uma colombiana descobriu que estava grávida. Foi embora, restaram nove. Dois membros fizeram um curso compacto de um mês. Foram embora, restaram sete. A chinesa, remanescente de outro grupo que acabou, foi embora depois de três meses. Restaram seis. Parecia uma situação estável. Mas aí começaram os problemas.
                    Até então, achávamos que o que importava era assistir as aulas, fazer o trabalho voluntário de limpeza e manutenção da fazenda, fazer o "homework", e cumprir todas as tarefas do DMM. E todos nós estávamos fazendo tudo isso, de maneira aplicada, reclamando um pouco, mas nada capaz de comprometer o bom andamento da escola. Acreditávamos no que diziam sobre democracia,  igualdade e respeito aos cidadãos, vida em comunidade, solidariedade e outros valores "nobres".  Achávamos que estávamos indo muito bem, e até estranhávamos o mau humor dos estudantes mais antigos, em relação aos métodos da escola.                
                    Mas depois de um dia de trabalho, tomar uma cerveja, ir a uma festa, era direito nosso. Pelo menos, era isso o que pensávamos. No começo, ainda era divertido. Sair de noite, no escuro, pra tomar cerveja no boteco da praia... era engraçado. Mas pouco a pouco, foi perdendo a graça e tomando ar de protesto. Nadhia e as colombianas disseram que nunca tomaram tanta cerveja na vida. E elas faziam isso só porque era proibido! Eu não ia junto, porque não tenho mais saco pra tanta festa. Mas dava todo apoio e cobertura. Ajudei a inventar desculpas, a buscar caminhos no escuro, a entreter professores, enquanto elas saiam.
                   Depois a leptospirose da colombiana e o tétano da égua. E a gritante diferença de atitude em relação a cada um dos episódios. E houve os "meetings"! Começaram os papos de fazer tudo juntos, de não comprometer o bom nome da escola, de estarem preocupados com a nossa segurança, e da regra de vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, à disposição do programa. O primeiro meeting eu achei muito chato, mas não me importei muito, no segundo, fiquei indignada, pensei seriamente em ir embora. O indiano não suportou e foi embora, restaram seis.
                     No terceiro "meeting", eu desisti. Saí na metade e resolvi ir embora. Fiquei furiosa!
                      - Não fico aqui nem mais um dia. Vou embora no primeiro vôo! - disse pra todo mundo.
Eles não respeitam nada! Fazem lavagem cerebral, jogam tudo pra resolver em assembléias e manipulam as assembléias. Tem todas as técnicas pra isso. Vencem pelo cansaço.  Mas, acabei não indo. Só não fui embora por causa do grande prejuizo financeiro e por causa dos amigos todos que fiz.
                      Depois de algum tempo, Nadhia desistiu. Foi embora. E as colombianas continuaram indo a festas. Até que duas semanas atrás, foram mandadas embora. E  alugaram uma casinha num vilarejo próximo e vão ficar lá até o dia do voo de volta delas. Estão felizes. Disseram que agora, que não é mais proibido, não vão a festas todos os dias. Então, de todo o grupo que era de dez pessoas, restou eu. Sou uma sobrevivente.
                      Tudo isso pra contar o que aconteceu ontem.

                                                                         ***

                       Em novembro, formou-se outro grupo de seis meses. Oito novas pessoas. Cheias de entusiasmo,  idéias e planos. Apresentaram seus novos projetos, que incluem a participação de uma família local, e receberam a ordem (disfarçada de sugestão) de fazer uma "skedule". Muitos "meetings" em torno do projeto. É a maneira que eles tem de sufocar qualquer princípio de criatividade. Reuniões e reuniões para discutir o assunto e responsabilizar cada membro do grupo, por uma parte da nova ideia, até transformar tudo numa colcha de retalhos, cujos pedaços ao final, dificilmente vão poder ser costurados. Ou se puderem, vão deixar tudo muito diferente da ideia inicial.
                       O grupo se entrosou rapidamente e começaram a contestar algumas posições da diretora. Depois de um mês, dois membros foram embora e depois de dois meses, mais uma desistência. A vincentiana que mora no Canadá desistiu e voltou pra Toronto.
                       O alemão e sua namorada colombiana, que já estudaram permacultura, ele na Alemanha e ela no Brasil, observaram a horta e  concluiram que se fossem utilizados outros tipos de fertilizantes orgânicos, a produção iria aumentar. Então elaboraram uma proposta para fazer um novo "compost", com restos de peixe, açúcar e coisas diferentes das que eles estão acostumados. Propuseram também que a experiencia seria realizada numa fazenda próxima, para iniciar uma relação com a comunidade local.
                        Eu soube que as reuniões em que apresentaram a proposta, não foram fáceis. mas o alemão e sua namorada colombiana insistiram, argumentaram e conseguiram. Fizeram uma apresentação para toda a escola e se responsabilizaram pela execução do novo projeto. Foi difícil, mas conseguiram. Ficaram animados com a vitória, então...
                       Amanhã é o aniversário da colombiana. O alemão planejou convidar os amigos para passar uma noite na praia, dormindo em barracas, fazer um churrasco de peixe, ouvir música e dançar à luz da lua,  para comemorar o aniversário. Eu estava animada com a festinha na praia, dormir na barraca, comer peixe, estava rezando pra não chover. Estamos na lua crescente, e se não chover teremos muitas estrelas, porque a luz da lua ainda não é tão forte. Seria tudo perfeito!
                       A diretora soube... e não permitiu. Somos uma comunidade, blablabla, temos que fazer tudo juntos, blablabla, voce não convidou todos, blablabla, voce está excluindo pessoas, blablabla... Quanto mais ele argumentava, mais ela radicalizava na negativa.
                      Susy e eu estavamos passando perto e o alemão nos chamou. Venham aqui, ficar do meu lado, nós estamos resolvendo o acampamento e a diretora não quer deixar! Assustamos um pouco, mas sentamos do lado dele para apoiá-lo. Susy disse que a diretora representa a autoridade e que, nesse momento, ele queria se sentir mais à vontade. E eu disse que todos tem direito à privacidade. A diretora disse que permitiria se fossem todos, inclusive ela . Ele quase surtou! Mas respondeu calmamente que havia só duas pessoas que ele não queria que fossem: a diretora e seu marido. Meu Deus! A cara da diretora! Olhos bem arregalados, fazendo um grande esforço para não demonstrar emoções... eu não queria estar no lugar dela! Aliás, eu não queria estar nem no meu lugar! Mas o alemão precisava de apoio e, mais que isso, merecia esse apoio. Então ficamos.
                       E o "meeting' continuou. A diretora, um professor, o alemão, Susy e eu. Sinceramente, eu tive medo de que o alemão desse um murro na cara da diretora, mas ela blablabla, permanecia firme no seu discurso de vida comunitária, blablabla, partilhar tudo, blablabla, não excluir ninguem... mas estava cansada. Disse que esse assunto deveria ser discutido por toda a escola num "common meeting".
                      - Temos que discutir sobre a exclusão!
                      Para ela, discutir sobre os erros alheios é fácil. Ou ela pressiona até a pessoa desistir, ou ela "perdoa" o erro e a pessoa aceita as condições que ela impõe. Então, ela coloca o foco da discussão na exclusão, porque assim fica fácil manipular e fazer todos acharem que o alemão está errado.
                      - Não! - eu disse -  O assunto não é esse! Temos que discutir sobre o direito à privacidade!
                       E a diretora e o professor que estava com ela, me olharam atônitos e calados. Falaram que era tarde e que deveriam continuar a discutir esse assunto outra hora. E era mesmo. Foram quase duas horas de discussão inútil. Deu pra ver que para discutir privacidade, eles não estão preparados. Vamos ver o que acontece. Hoje é dia de "common meeting".

                                                                       ***
                                                         
                       Acabou o "common meeting". A diretora amarelou. A festinha e o acampamento não foram assunto.  O acampamento não vai acontecer, porque as barracas são da RVA e ninguem vai pedir emprestado. Então a festinha vai ser na praia de Richmond mesmo, vamos fazer o churrasco, ouvir música, dançar e depois voltamos cada um pro seu quarto. A diretora não foi convidada e não insistiu mais no assunto. Tudo em paz.

                        Voce já pode dizer eu li na tela da
                                                                                  Eulina