segunda-feira, 9 de dezembro de 2019







                                                                 SANTIAGO!


          Enfim, chegamos!
          A catedral lindíssima, com a fachada toda restaurada, muito mais fotogênica, serve de cenário para todas as "selfies" de todos os peregrinos e de todos os grupos, que ficam extasiados com a visão. A enorme praça, em frente à igreja fica repleta de gente se abraçando, desfraldando bandeiras de muitos países. Muita gente confraternizando! Uma de minhas amigas trouxe uma bandeira do Brasil, que eu segurei nas pontas e com os braços abertos, posei com meu melhor sorriso, para uma foto, com a catedral ao fundo e a bandeira na frente. Beleza!
           Todos riem, choram, rezam, cantam dançam, externam emoções como podem... e se abraçam. É a terceira vez que chego a Santiago depois de um caminho percorrido. E sempre me recordo dessa praça, como o local no mundo onde dei e recebi os melhores abraços!

          Nosso albergue fica perto. Descemos uma escada, depois uma ladeira e chegamos. Nosso quarto fica no quintal. É minúsculo e tem dois beliches e uma cadeira. Difícil de acomodar as coisas,
porém com lençois limpinhos e cheirosos. O banheiro fica longe, mas é grande e razoavelmente confortável. Ficamos bem acomodadas. Minhas amigas vão até Finisterre. Eu já fui lá duas vezes. Em 2001, pela primeira vez e em 2017, quando fiz o Caminho Português. Desta vez, vou ficar em Santiago.
 
          A cidade fervilha! Milhares de lojinhas, com infinitas lembrancinhas...  o que será que São Tiago acha disso?  Tento não me render ao consumismo. Não consigo, me deixo vencer pela tentação de dar presentinhos. Pra mim, não compro nada. Ando pela cidade. No dia em que as amigas foram à Finisterre, eu fui passear de bondinho pela cidade. É grande, bonita e bem resolvida, tem muitos monumentos, museus, parques, tudo muito bem conservado. Converseri com alguns moradores e todos disseram gostar muito de viver ali, mas que no inverno, quando há menos turistas e peregrinos, eles gostam mais.

          A catedral está sendo reformada por dentro. Então as celebrações estão suspensas. É uma pena. A missa dos peregrinos está sendo rezada todos os dias, ao meio dia, na igreja de São Francisco, que fica perto.  Mas sem o botafumeiro.
          É interessante, porque das outras vezes que estive em Santiago, os peregrinos  (eu inclusive) sempre choram emocionados quando o botafumeiro é acionado. Reza a lenda que a função do botafumeiro era disfarçar o cheiro ruim dos peregrinos que chegavam e iam diretamente para a missa. Atualmente, simboliza a limpeza que o peregrino faz na  alma, quando percorre o caminho. E é nessa hora que a choradeira é geral. Realmente, ver aquele enorme objeto fumegante, "voar" por toda a igreja, acionado por oito padres ao som dos cânticos gregorianos, é emocionante. Que bom que eu já vi essa cena algumas vezes.
           Desta vez, eu fui à missa na igreja de São Francisco e agradeci pela jornada ao som dos cânticos, mas sem botafumeiro.

           Em 2001, quando caminhei pela primeira vez, senti muito mais a sensação de misticismo e magia comumente associadas ao caminho. Não havia celulares, não se pagava nada nos albergues e o menu do peregrino era muito mais barato. Não existiam ônibus cheios de "turisgrinos" e só não carregavam seus mochilões as pessoas realmente impossibilitados. Pisávamos no chão, na maior parte do tempo. O caminho nos fazia lembrar da idade média.
            O número de cidades desabitadas, ou que são habitadas só por donos de albergues, de comércio, bares, restaurantes exclusivamente para peregrinos era muito menor. Havia mais roupas nos varais das pequenas cidades. Os moradores vinham conversar com os peregrinos e oferecer água, às vezes uma fruta e pedir que rezássemos por eles em Santiago.
             Agora, esse misticismo, essa magia não são assim tão evidentes. Nem a cordialidade dos moradores. O caminho é mais atlético e turístico. E mais confortável. Mas continua muito interessante.

              Atualmente, os vários caminhos podem ser trilhados no todo ou em parte, a pé ou de bicicleta, por muito mais gente, de todas as idades. Aumentou muito o número de caminhantes da terceira idade, ou com qualquer tipo de dificuldade de locomoção. Isso é ótimo. E todos tem direito à Compostelana. Os caminhos se democratizaram.
             Se alguem, como eu quiser meditar, rezar, sonhar, pensar na vida enquanto caminha, terá muitas oportunidades. Se for atleta e quiser praticar "trekking" medindo tempos e kilômetros, também terá oportunidades. Se quiser faser um tour histórico e arquitetônico, passando por lugares com muitas  belas construções,  monumentos e obras de arte, também será possível. E o caminhante poderá ainda experimentar a excelente gastronomia da Espanha, bebendo os melhores vinhos. Tudo isso enquanto exercita a própria capacidade de resiliência e conhece pessoas de todo o mundo.

            Enfim, vale a pena fazer o(s) Caminho(s) de Santiago!

            Voce já pode dizer eu li na tela da
                                                                Eulina

     

 

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019






                     

                                                  OS ÚLTIMOS 100 KILÔMETROS


          Para ganhar a Compostelana (diploma de peregrino do Caminho de Santiago) é preciso percorrer a pé, a cavalo ou de bicicleta os últimos cem kilômetros. E a cidade de Sarria, que fica a aproximadamente cem km, é  a confluência de quase todos os caminhos que vão a Santiago, partindo de diversos pontos da Espanha. Então, a partir daí o caminho se torna muito mais movimentado. Muitos peregrinos que vieram de muitos caminhos se encontram.  E além disso há muitos peregrinos que só vão fazer cem kilômetros mesmo. Os novos albergues e os antigos também, estão sempre lotados. É preciso reservar com antecedência.

          Atualmente existem ônibus que despejam hordas de "turisgrinos" no caminho. É possível reconhecê-los pelas roupas limpinhas e pela mochila pequena, as grandes ficam nos ônibus. Nem todos usam botas, andam de tênis ou até de "Kroc". Quando chegam em algum restaurante, sempre tem uma mesa grande reservada. São olhados com um certo desprezo pelos peregrinos caminhantes. Encontrei vários grupos desses. Muitos coreanos, espanhóis e alguns franceses. Esses grupos não se misturam. Não interagem, ficam só entre êles. Andam parte de ônibus e parte a pé os cem kilômetros e, quando chegam a Santiago, ganham a Compostelana.

            Felizmente, a maioria dos peregrinos caminhantes oriundos do caminho francês tradicional ou de outros pela Espanha é sempre aberta a novos e internacionais relacionamentos. A língua mais falada é o inglês, mas o Google Translator funciona muito. E mímica também. Mímica é o que mais funciona. Conseguimos dar e obter informações de todos os tipos e para peregrinos de todas as nacionalidades, falando uma mistureba de línguas e mímicas. Enfim, vale tudo. Tudo e todos juntos e misturados. É a maior lição que o caminho nos dá. Afinal, apesar de diferentes, somos todos iguais. Essa é a grande contribuição do caminho para a paz mundial.

           Os últimos trechos são superpovoados. Não temos mais a sensação de isolamento, paz e tranquilidade que tínhamos anteriormente. Ás vezes, em trilhas estreitas, formam-se filas de peregrinos. Eu não gosto muito, mas não tem jeito. É assim e pronto. Mas mesmo assim, prevalecem a alegria e a ansiedade de chegar!

           Percebemos também que quanto mais perto de Santiago, mais a população das cidades fica mal humorada com peregrinos. Devem estar de saco cheio. Eu me lembro, em 2001, todos estavam muito agradacidos ao Paulo Coelho que havia praticamente redescoberto o caminho em seu livro "O Diario de um Mago" dando, à época, um grande impulso à economia do turismo na Espanha. Éramos sempre muito bem recebidos. Agora, essa fase acabou e eles estão "de saco na lua" com essa multidão de peregrinos.

          Tem gente que fica triste quando o caminho está acabando. Habituam-se com a rotina de andar. comer dormir e andar de novo. Fizeram amigos, que sentem ter de deixar. Gostaram do silêncio dos campos, montanhas e florestas. Meditaram, energizaram, rezaram, exercitaram a solidão e o auto conhecimento, tudo conforme suas crenças... abandonaram algumas crenças e adquiriram novas. Enfim, se tornaram outras pessoas... sentem saudade do caminho, antecipadamente. Esses começam a andar mais devagar, querem demorar a chegar.

          Outros estão ansiosos por retomar suas vidas normais, reencontrar a familia, amigos, trabalho... Estão cheios de histórias e aventuras para contar. Querem o conforto de suas casas, suas camas, suas rotinas diárias...   é a maioria. Esses passam a andar mais depressa, querem chegar logo. Minhas amigas e eu pertencemos à essa categoria.

          Em comum, todos estão felizes e bem humorados. E além de terem exercitado suas paciências e capacidade de resiliência, setem o orgulho de um dever cumprido, uma etapa vencida.

                                                                            ***

           Voce já pode dizer eu li na tela da
                                                           Eulina



         

         

 

terça-feira, 3 de dezembro de 2019





                                           


                                                           ANCESTRAIS


          A Galicia é quase toda plana. E foi quase toda pavimentada. Não tem grandes subidas e descidas e nem atoleiros. O cheiro de bosta permanece, é o mesmo que senti em 2001. Mas eu gosto. Eu sentia esse cheiro na fazenda do meu tio, onde passei todas as férias escolares. A paisagem é linda. Podemos caminhar tranquilamente, sem precisar prestar atenção no chão.
           Eu caminho olhando as árvores, o gado pastando, as construções de pedra resquícios da civilização celta, ouvindo o canto diferente das aves, e me lembro de Gonçalves Dias: 
            "Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá. As aves que aqui gorgeiam, não gorgeiam como lá."
             A cabeça pode voar à vontade, enquanto ando. Eu adoro isso, sigo feliz nesta terra sem palmeiras.
                                                                       ***

          Tenho encontrado peregrinos que acolhi em Logroño. É muito bom. Eles se lembram de mim, me abraçam apertado. Agora que estamos quase no fim do caminho, todos já se encontraram em algum ponto. Todos se cumprimentam, trocam impressões sobre a caminhada do dia anterior, os planos para o próximo trecho, comentam o último albergue. Consultam mapas, roteiros, Google, GPS.  Sempre que chegam ficam discutindo o percurso. Minhas amigas fazem isso. Eu apenas concordo com tudo. Minha missão é falar pelo celular com os hospitaleiros dos albergues, dos dias seguintes:
          - Jo quiero reservar tres camas bajas para tres senõras de edad!
          Um dia, precisamos telefonar para vários albergues até conseguir a reserva e um peregrino sentado ao nosso lado começou a rir:
           - Há...há...há... tres camas bajas... há... há... há...
          Dias depois, nós nos encontramos com ele novamente em outro albergue e êle nos cumprimentou rindo... - Olá tres camas bajas!

                                                                     ***

          É interessante ver como as pessoas se resolvem, como lavam as roupas, escovam os dentes,  penduram ou inventam meios de pendurar as roupas na hora do banho... ou de empilhar suas coisas ao lado da cama... alguns fazem uma cortininha na cama de baixo do beliche, enroscando um pano qualquer no estrado da cama de cima. Querem privacidade.
          Outros usam o estrado da cama de cima como varal. Vemos cuecas, calcinhas, meias soutiens, tudo sacolejando a cada mexida do ocupante da cama de cima. É engraçado observar um dormitório! Tive muita sorte, pois em vinte dias de caminhada, dorminndo em quartos coletivos, não precisei usar os tampões de ouvido nenhuma vez. Não encontrei roncadores neste caminho.

                                                                        ***

          Dormimos em Palas Del Rey. Simpática cidade onde a maior atração turística é o castelo de Pambre, que fica a vinte kilômetros, no povoado de Ulloa, ao lado do rio Pambre. Aqui cabe uma pequena explicação:
            Meu sobrenome, por parte de pai é Ulhôa Cintra e rezam as lendas da minha familia, que na era dos reis Felipes da Espanha, alguem de Ulloa se casou com alguem de Cintra de Portugal, (que na época se escrevia com "C"), dando origem à familia Ulloa Cintra.
           Quando Napoleão invadiu Portugal, a familia então residente em Lisboa, fugiu para o Brasil, junto com a côrte de Dom João VI. Aqui, os dois "ll" de Ulloa se transformaram em "lh" e Cintra permaneceu com "C" enquanto em Portugal mudou para "S".

                                                                           ***
           Então, pegamos um taxi e fomos visitar o castelo de meus "ancestrais". Todo de pedra! Com uma torre alta, digna da Rapunzel!  Lindo! Cercado de grandes muros, ladeados por um fosso enorme, tudo no melhor estilo da idade média. O portão de entrada traz alo alto o brazão da família e funciona com carretilhas que quando acionadas fazem abaixar a madeira formando uma ponte sobre o fosso.
           O Castelo foi construido por Don Henrique Ulloa, no ponto mais alto de um campo enorme, para servir de fortaleza, contra os ataques dos mouros. A vista do castelo é monumental e a vista do alto da torre é espetacular! Todo restaurado, um luxo! É a mais perfeita construção medieval de toda a Espanha, como explicou o zelador/curador, que já morou no Brasil. Quando eu contei sobre a lenda de minha família, êle se levantou, apontou com o braço a porta de entrada e disse, em bom português:
          - Então, sinta-se em casa! - e eu me sentí importantíssima, visitando o "meu" castelo! 

           Para mim, esse foi o momento mais emocionante do caminho.

                                                                             ***


          Voce já pode dizer eu li na tela da
                                                              Eulina

         

sexta-feira, 22 de novembro de 2019






                                                              ALBERGUES


                    Quando caminhei em 2001, chegávamos em algum vilarejo, ou mesmo em uma cidade e procurávamos o albergue municipal. Não era obrigatório pagar, mas  havia uma caixa para donativos. E sempre havia vagas. É verdade que peguei camas altas do beliche, várias vezes, mas na época eu tinha 18 anos menos... Agora, a maioria dos albergues é paga e temos que telefonar todos os dias para fazer reserva. E às vezes já está tudo lotado. Se telefonamos com dois ou três dias de antecedência, conseguimos reservar camas baixas. Foi o que fizemos.
                   
                     Num dos vilarejos, o albergue tinha longos corredores, com quatro  pequenos quartos de madeira de cada lado. Cada quarto tinha dois beliches encostados nas paredes de madeira, com espaços mínimos entre eles, com pateleiras nos pés das camas, para acomodar as mochilas. era tudo de madeira e tão apertado, que nos sentimos estar dormindo dentro de um armário.

                     Já em outros albergues, era tudo muito bem planejado. Espaço suficiente para as mochilas, luz de cabeceira, prateleira para as coisas, cabides, camas altas com escadinha... com certeza quem planejou esses dormitórios já foi peregrino.

                    Num lugar, fomos muito mal recebidas por uma mulher sem nenhuma educação, que nos olhava feio, resmungava ou gritava conosco. Mas em compensação, subimos por uma escadaria de mármore, ficamos sozinhas num quarto enorme cheio de camas de casal, com banheiro privativo e ... um luxo: banho de banheira!

                   Em outros, o quarto era enorme, com mais de vinte beliches, uma confusão de mochilas, botas, sacolas e outros pertences empilhados  no chão e banheiro muito longe. Num desses, durante a noite, eu não achei o banheiro feminino, fui no dos homens. Pensei com meus botões. Se alguem reclamar, eu digo que sou trans. E fiquei durante o todo o tempo do pipi, pensando em como dizer isso em inglês. Achei essa desculpa tão boa, que usei muitos banheiros de homens daí pra frente. Mas não tive oportunidade de dizer "I am shemale", como me ensinou o Google Translator.

                  Um dia estava chovendo. Estávamos sonhando com um banho quente e uma cama fofinha. Mas nosso quarto ficava no fundo de um quintal. Era pequeno, abafado, mal iluminado, com seis beliches, nenhum cabide... nós nos acomodamos como pudemos e fomos tomar banho. Tivemos de sair na chuva novamente, andar pelo quintal até o banheiro. Dois banheiros enormes e um cartaz dizendo que eram destinados a cadeirantes. Animadas, abrimos as portas. A animação durou pouco. Apenas um dos recintos tinha um chuveiro. O outro tinha uma privada. Considerando o espaço que ocupavam, dava pra ter uns seis chuveiros e umas quatro privadas. Tomamos banho e depois saimos na chuva novamente até o quarto. Grrr...

                   No meio do caminho, entre uma cidade e outra, ficamos num albergue ecológico, onde tínhamos reservado tres camas baixas. Eu cheguei antes. Minhas amigas estavam uns quarenta minutos atrás. Entrei e fiquei horrorizada. Tudo sujo. Da recepção dava pra ver a pilha de louça suja na cozinha. Sala desarrumada, com brinquedos e roupas de crianças espalhadas pelo chão. Paredes de pedra e grandes vigas de madeira. Tudo tão rústico, que parecia agressivo. Teias de aranha nos cantos. Eu me senti dentro de uma caverna. Tinha jantar comunitário. Vegano. Eu não quis participar e disse que minhas amigas provavelmente não quereriam. Só queríamos o vinho. Jantamos pão com salame, numa mesa que estava no quintal. O vinho era bom.  Durante a noite, eu me levanto para o pipi. As camas são colocadas no enorme quarto, de maneira aleatória. Estava um breu. Meu celular, longe na tomada carregando. Eu me levanto e vou para o lado onde que acho que fica o banheiro... Só que não. Dou de cara com outra cama e depois com outra e mais outra... ando pra cá e pra lá, feito barata tonta... ai meu Deus, onde está o banheiro? Tenho que rebolar, o pipi está quase saindo... pânico ME... não, não fique panicada, voce vai encontrar, penso rebolando. Então, ví uma luzinha... uma moça estava acordada olhando o celular...               
                     - Can you please lend me your cell phone, so that I can go to the toilet? - ela responde em espanhol,
                     - Si... aqui esta! - ela acendeu a lanterna. Eu achei o caminho, fiz o pipi e na volta, agradeci muito!
                     - Muchas, muchas gracias! ... E me perdi novamente! Naquele breu, eu não conseguia achar a minha cama. A moça dando muita risada, me disse:
                     -Tu cama es esta! - e apontou.
                     - Não! Minha cama fica longe da sua! - falei português, será que ela entendeu?
                     - Es esta si, estoy segura! - a esssa altura, gargalhavamos as duas!
                      Não a vi no dia seguinte. Mas tenho certeza de que se lembrará de mim para sempre. Afinal não é qualquer um que consegue se perder dentro do quarto a caminho do banheiro...

                     Eu durmo na cama baixa. Em cima um homem pula que nem cabrito. A cama balança e eu não consigo dormir, então ligo o celular, ponho os fones de ouvido e começo a ver o facebook. O cara em cima de mim pula mais ainda. A certa altura, ele desce do beliche chega perto de mim e diz que não consegue dormir porque o meu celular está muito alto! Mas eu estou com os fones! Tenho vontade de responder que eu não consigo dormir porque ele se mexe demais e a cama toda treme...
Mas não digo. Não quero encrenca. Desligo o telefone. Ele sossega na cama. Dormimos ambos.

                      Mas na maioria das vezes, os albergues são bons. Os hospitaleiros são acolhedores, os jantares comunitários são deliciosos e o vinho maravilhoso. Os banheiros são um pouco difíceis... mas depois de decifrar o funcionamento das torneiras, das descargas e dos chuveiros, tomamos bons banhos, sempre revigorantes depois da caminhada.

                       Voce já pode dizer eu li na tela da
                                                                       Eulina
















segunda-feira, 11 de novembro de 2019







                                  ANDAR, COMER, BEBER, DORMIR E ANDAR DE NOVO


                    Eu me assusto com cidades quase desertas. Os poucos habitantes que encontramos são velhinhos. Não vemos crianças nem jovens. Peregrinos, muitos peregrinos. O caminho está muito diferente. Em 2001, quando fiz pela primeira vez, os peregrinos eram poucos e pelo que me lembro, as cidades eram mais habitadas pela população local.
                   Agora, as cidades, na sua maioria são habitadas pelos donos dos albergues e restaurantes. Ainda há alguns mercadinhos locais. Mas não há escolas, as casas estão todas com as janelas fechadas, e apesar de terem os jardins limpos e cuidados, não vemos ninguem. Às vezes, um varal com roupas de adultos.
                   Estou falando das pequenas cidades. Sempre tem uma igrejinha com um lindo campanário. E no alto dos campanário, um ninho de cegonha. Em 2001, havia muito mais ninhos de cegonhas. E mais crianças. As cegonhas de hoje estão desempregadas.

                                                                ***
                   Em Castrojeriz, só existe uma rua. Uma igreja bem grande no começo da rua e cinco igrejas menores situadas entre vários albergues e restaurantes. Quase no fim, um pequeno centro comercial, com um mercadinho de artigos peregrinos, com um casal de vendedores que deviam estar ali desde a idade média. Um boteco, com mesinhas cheias de peregrinos tomando cerveja e uma agência de correios com a seguinte placa: Horário de funcionamento: de segunda a sexta, das 11:00, às 11:15!  Se não fosse o caminho, essa cidade não existia!

                                                                  ***
                 Uma de minhas amigas tem problema nos joelhos e uma bolha com o diâmetro  do tamanho de uma bola de pingue pongue num dos calcanhares. Mal consegue andar. Fizemos um trecho de ônibus, ela descansou e melhorou. Dia seguinte, recomeçamos a caminhar. Ela vai devagar e nós paramos para esperá-la de temos em tempos. Fizemos assim todo o caminho. foi bom, porque não nos cansamos muito. Exceto a bolha e o joelho, não tivemos nenhum problema de saude em todo o caminho. Aliás, não tivemos nenhum problema.

                                                                     ***
                   Vou andando e me lembrando de Logroño. Ouvi este diálogo, no dormitório, quando fui contar quantas camas estavam ocupadas.
                  - Where are you from?
                  - Del pais Basco.
                  - Entonces eres español!
                  - No! Basco!
                  - Español!
                  - BASCO!
                  - OK Basco.
                                                                    ***
                   Agora, que sou peregrina, encontro com os peregrinos que acolhi. Me dão longos abraços.
                  - I was so down, but when I saw you, you smile at me, I became well again! It was so good!
                   E eu nem me lembro dela, muito menos do sorriso que dei, ou do que eu disse que lhe fez tanto bem!
                                                                 
                                                                     ***
                     - What is your name?
                     - Hermann.
                     - With this name... are you German?
                     - Of course! And you?
                     - I am brazilian!
                     - Seven x one!
                     Rimos ambos. Eu respondo:
                      - Herman, from German, all the world learned how to play football with the brazilians!
                      - Yes. It is true. But now, we are better!
                      Sou obrigada a concordar.
                   
                                                                        ***
                      Durante um jantar comunitário, encontrei  outro alemão contando, que esteve num albergue, onde cada peregrino devia cantar uma canção de seu país e ele ficou muito triste, porque os alemães não conheciam nenhuma música da Alemanha...
                      Eu com a cara de pau, que me é peculiar, cantei: lalalará, lalalará, lalala Lichtstein polka, Lichtstein polka...
                      Ele ficou olhando... eu disse: não é uma música alemã? Ele respondeu: sim... mas nós não cantamos...  e seus olhos ficaram tristemente pensativos.

                                                                         ***
                      Os banheiros são um capítulo à parte. Nunca se sabe onte fica o interruptor da luz, nem como se abre a porta, se para a esquerda, para a direita, se é de correr... tinha até porta com duas folhas. A luz normalmente fica no lugar mais escondido do ambiente. A descarga pode ser de apertar, de puxar cordinha, de abaixar alavanquinha, de puxar um botão. Teve um banheiro (numa parada hippie no meio do caminho) que era uma privada colocada em cima de um buraco enorme. As torneiras se abrem para a esquerda, para a direita, são de apertar, ou fotossensíveis, então ficamos fazendo gestos em frente às pias. Ah... e quando as luzes do teto são daquelas com timer, elas insistem em apagar no meio do número dois ou do banho... ou saimos nus/as dançando no meio do aposento, ou terminamos no escuro. Os boxes do chuveiro são minúsculos, e os chuveiros espirram água por todos os lados de tal forma que é comum a gente ficar se mexendo para receber os pingos d'água, esbarrar na torneira e de repente, a água ou pela ou gela.
                      Mas um bom banho depois de andar vinte km... não tem preço!

                                                                          ***
                      Voce já pode dizer eu li na tela da
                                                                     Eulina





               

sexta-feira, 1 de novembro de 2019





                                                      ENFIM, PEREGRINA


                    As minhas sucessoras no trabalho voluntário deveriam ser duas brasileiras,              segundo me informaram. No entanto, na véspera do término do meu período, no fim da
tarde, chegou uma canadense, bem branquinha, com pequenos e assustados olhinhos azuis, gorducha e ofegante. Ela se parecia fisicamente com a fada madrinha da Cinderela de Walt Disney e sofreu para subir as escadas, o que me fez ficar apreensiva quanto à sua capacidade para subir e descer, essas escadas inúmeras vezes, no dia a dia. Contei a ela tudo o que tinha aprendido no meu período e ela anotou tudo num caderninho. Parecia cheia de boa vontade e disse que estava aguardando sua companheira também canadense, no dia seguinte.
                  No dia seguinte, de manhã, após o café, durante o qual meu "chefe" e eu tentamos responder a todas a suas aflitas perguntas, ela disse:
                         - Onde eu devo deixar as louças do café para serem lavadas? - Ai meu Deus, ela não entendeu nada!   
                       - Você deve lavar a  sua louça e dar exemplo aos peregrinos para que cada um lave tudo o que sujou!
                           Tadinha! - Seus olhinhos até cresceram, de tanto que ela arregalou. 
                    Eu me despedi e fui embora com peninha dela. Fui de ônibus me encontrar com as amigas. No caminho até a rodoviária, fui me despedindo de Logronho. 
                          Missão cumprida!
                                                                          ***
                    Desci do ônibus em Burgos e assustei com o toque dos sinos da Catedral ao meio dia. bonito, mas ensurdecedor. Depois tomei um taxi a Hornillos del Camiño, onde iam pernoitar minhas amigas. Cheguei ao albergue, agora como peregrina. Cheguei cedo, consegui uma cama "baja", ou seja, a cama baixa do beliche. Minhas amigas chegaram mais tarde. Uma delas ficou na cama alta. Comemoramos com cerveja antes e com vinho durante a refeição. O menu do peregrino é sempre farto e regado a vinho.
                       "Com pan e viño se hace el camiño!"  É uma das muitas alegrias do caminho!

                                                                          ***
                   Manhã seguinte, mochilão nas costas, comecei a caminhar. A alegria de caminhar no meio da natureza é indescritível!
                      A sensação de liberdade, a cabeça solta! O privilégio de poder olhar as plantas, de ouvir os pássaros, de sentir os cheiros, de comer as frutas colhidas no pé... e de fazer voar os pensamentos! Que coisa boa!
                     Quando passamos por cidades grandes ou pequenos vilarejos é muito bom observar a arquitetura, o traçado das ruas, a maneira de se comportar do povo, suas tradições e sua história, usos e costumes. Percebemos que as pessoas, embora diferentes, são tão iguais...
                  As enormes planícies espanholas, onde o caminho é uma reta sem fim, e de onde podemos ver o horizonte em todas as direções... nos fazem pensar na eternidade! É fácil rezar, falar com Deus! Bendito caminho!
                Quando olho pra trás e vejo o horizonte, penso: - Eu vim de lá! - e olho pra frente, pro outro horizonte e penso: - Eu vou pra lá! - com meus próprios pés, eu me sinto toda poderosa, quase não caibo em mim, minha cabeça cresce, desprende-se do pescoço e vai parar nas núvens... além das núvens, não tem limites... maravilha! Vou repetir: Bendito caminho!

                                                                       ***

                   Você já pode dizer eu li na tela da 
                                                                     Eulina 











                   

quinta-feira, 31 de outubro de 2019





                                                       DIA RUIM


                     Toda vez que eu faço algo, o meu companheiro (que se julga meu chefe), vem e me diz que não é assim. Mas não me explica como deve ser. Aí, êle faz tudo de novo, bem depressa com cara de chefe. Isso acontece todos os dias depois da janta. Os peregrinos devem lavar a louça. A cozinha é pequena e ele fica em pé no meio dando ordens. Fica tudo atravancado, não se consegue mexer direito nessas horas. Vou pro quarto e fico esperando a hora de arrrumar a mesa para o café do dia seguinte. Volto para a cozinha, quando o movimento diminui e participo da arrumação da mesa. Colocos os pratos de sobremesa, xícaras, copos, talheres, cestas de pães cortado em fatias, geleias, biscoitos... enfim, tudo o que faz parte do café da manhã. A essa altura, ainda tem gente lavando louça e panelas e o "chefe" ainda está lá dando ordens. Ele olha pra mesa e coloca os guardanapos de papel, com cara de "você não faz nada certo". Todo dia é isso. Então, acho que o meu serviço acabou. Volto para o quarto e estou me preparando para dormir, quando o "chefe" bate na porta e grita comigo:
                      - Você não faz nada! Eu tenho que fazer tudo sozinho enquanto  você fica no seu quarto! Venha fazer o café!
                      Eu rezo pra São Tiago - Dai-me paciência! Muita paciência! - Eu vou pra cozinha e tento explicar que havia muita gente, mas ele não me deixa falar. Enfim, num gesto extremo de piti, ele vai dormir e diz:
                      - Então faça o café sozinha!
                       Eu fiz. Odeio as cafeteiras, odeio as garrafas térmicas. Mas fiz. São três cafeteiras. Uma estragou no dia anterior. Só duas funcionam. Então temos que fazer café muitas vezes para encher duas enormes garrafas térmicas.
                       Eu sozinha com duas cafeteiras velhas e insuficientes para encher duas enormes e complicadas garrafas térmicas!
                      -  Sem pânico, ME, fica calma que voce consegue! - Eu fico calma, faço funcionar uma cafeteira e... não consigo abrir a outra! Por mais que eu tente, não consigo! Vou até o dormitório, Tem dois peregrinos acordados.
                       - Can you please open this for me?
                       Os dois tentaram e também não conseguiram. Escrevo um bilhete dizendo que nem eu nem dois únicos pregrinos acordados conseguiram abrir. Deixo a cafeteira no meio da bancada da cozinha, em cima do bilhete. Fiz café muitas vezes na mesma cafeteira até encher as horrorosas garrafas térmicas. Dormi feito pedra.
                                                                    ***
                        Dia seguinte, só digo  bom dia. Não sei se o piti passou. Da minha parte, estou de saco na lua! - Paciência ME! Só faltam quatro dias.
                        Limpo, lavo, passo pano, ponho roupa no varal, recolho a roupa do varal, dobro tudo, ponho tudo no lugar... Ele tenta puxar papo. Sou monossilábica. Não dou chance. Não quero mais briga! Só quatro dias!
                         Mas... não deixo barato. Planejo um texto legal sobre machismo.

                                                                    ***
                          Publiquei o texto sobre machismo no dia 11 de setembro. Ainda estava lá. Uma reflexão sobre a maneira como  me trataram. É impressionante como escrever é bom. Depois que a gente escreve, fica com a alma leve.
                          Agora já estou em Sampa. Já descansei bem, já retomei minhas atividades normais, então vou começar a postar minhas aventuras como peregrina no período de 17 de setembro a 7 de outubro. Como não havia internet nas cidades onde pernoitei, anotei as coisas interessantes num caderno e vou passar a publicá-las a partir de agora.

          Voce já pode dizer eu li na tela da
                                                                   Eulina