sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

 


                                                              

                                                                   INTRODUÇÃO 

                                                                                                                                            21/12/2012

    Estudei em colégio de freiras. Tinha aulas de catecismo, fiz primeira comunhão vestida de "noivinha", rezava o terço, ia à Missa todos os domingos... pacote completo.

   Gostava das aulas em que descreviam a viagem que Maria grávida, montada num burrico puxado por José, fizeram pelo deserto da Judeia, quando eles saíram de Nazaré e foram até Belém, para serem recenseados. Gostava também do nascimento de Jesus, em Belém. Como não conseguiram lugar em nenhuma hospedaria, Maria e José se abrigaram numa gruta, onde Maria deu a luz. No local, havia uma manjedoura onde o recém nascido foi colocado, envolto em panos. Gostava da estrela que guiou os reis magos, gostava dos pastores e dos anjos que cantaram aleluias.

   Depois, o menino cresceu e me ensinou que para viver em paz é preciso amar também os inimigos, por mais difícil que isso possa parecer. Eu também cresci, a vida seguiu e eu segui gostando de tudo isso até hoje.

                                                                            ***

   Pois bem. Um dia, um amigo que sabe que eu costumo fazer longas caminhadas, me passou um e-mail do Siraj Center, uma instituição palestina que promove caminhadas de Nazaré até Belém, atravessando o deserto de Negev (chamado de deserto da Judéia, nos tempos bíblicos). O caminho se chama "Natividade" e tem o objetivo de tornar mais conhecida a Palestina, sua cultura e seu povo. 

   Eu me interessei imediatamente por essa nova aventura. Entrei em contato com o Siraj Center e manifestei meu interesse em atravessar o deserto e chegar em Belém na véspera do Natal. Eles disseram que para programar a caminhada era preciso que houvesse no mínimo cinco pessoas. Então eu me empenhei em arranjar quatro peregrinos (as) para ir comigo. Arranjei bem mais. Fizemos algumas reuniões e eu estava animadíssima.

   No entanto, no dia sete de dezembro de dois mil e doze, durante uma operação militar realizada por Israel, houve um bombardeio e morreram mais de cento e setenta palestinos. Todos os meus amigos peregrinos desistiram de caminhar pela Palestina. Eu não desisti.

   Entrei novamente em contato com os organizadores e eles disseram que havia um grupo de italianos que já tinha confirmado a caminhada  para essa época. Mandei e-mail para os italianos e eles disseram: "Yes, you are wellcome! Si, sarai il benvenuto!" Enfim!

    Assim começou a minha grande aventura em terras palestinas, no dia vinte e um de dezembro de dois mil e doze. Vale lembrar que o Calendário Maia previu que o mundo ia acabar nesse dia. Tempos depois,  Hollywood fez um filme devidamente catastrófico sobre isso.

   Eu não me importei com o fim do mundo. Fui feliz para a Palestina, pronta para caminhar o caminho de Maria e José.

                                                                         ***



quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

 

          

                                                                    INTRODUÇÃO


Minha sobrinha é sócia de uma empresa de captação de voluntários para projetos sociais.

Em 2019, eu me inscrevi para ser agente de saúde na Amazônia, por um mês. Ia morar num barco e percorrer os rios, trabalhando em algumas cidades ribeirinhas. Uma grande aventura. Comecei a pagar em parcelas. Estava animadíssima, era a realização de um sonho antigo.

No entanto, veio a pandemia. O projeto foi sendo adiado. Eu continuei pagando as parcelas. Passou 2020, eu continuei pagando. Passou 2021, eu acabei de pagar... e o projeto foi cancelado! Que triste! Mas eu fiquei com o crédito.

Então, me ofereceram outras alternativas de projetos sociais em andamento. Aventura igual a da Amazônia, estava difícil. Mas após algum tempo, decidi ir para a África, em setembro de 2022. Moçambique, porque lá, falam português e principalmente, por caber dentro do crédito que eu já tinha.

Assim, comecei a me preparar para outra grande aventura. Quinze dias trabalhando em Moçambique! Porém, pagar uma passagem de avião para cruzar o Atlântico, ir para o outro lado do mundo e ficar só quinze dias? Era muito pouco.

Então, convidei duas amigas também aventureiras, para uma viagem à África. Elas toparam. Eu ficaria trabalhando em Moçambique, e quando terminasse o meu período, me encontraria com elas e faríamos um "tour" pela África do Sul. Começamos a definir os locais que iríamos conhecer. Elas se encarregaram de fazer a programação do roteiro. Eu fechei a minha passagem, com a volta marcada para outubro.

Porém, em julho, num encontro com as amigas, perguntei como estava o roteiro. Elas responderam:

- Porque você tem tanta pressa? Nós só vamos no ano que vem! 

Ai... elas erraram de ano! Ou fui eu que não expliquei direito quando eu iria? Não importa. Elas não poderiam ir em 2022. E eu já tinha fechado a passagem de ida e volta! Acabou que eu fiquei com quinze dias livres no continente africano. Que fazer?

Recorri novamente à minha sobrinha, que depois de falar: Tia do céu! (frase que ouvi várias vezes, ao vivo, ou por mensagens, durante toda a viagem), me ofereceu novas alternativas. Escolhi então, trabalhar por uma semana na África do Sul, e ainda me restaria uma semana para conhecer Capetown.

Foi assim que iniciei esta nova grande aventura. Primeiro em Moçambique, na cidade turística de Ponta do Ouro, onde trabalhei no projeto Lwandi Surf, depois na África do Sul, onde trabalhei no projeto Daktari e turistei em Capetown.

                                                                            ***










terça-feira, 6 de dezembro de 2022

 

                                                                


                                                                    ÚLTIMO DIA


Vou embora hoje. São seis horas da manhã. Escrevo sentada na escadinha da varanda da minha cabana,  onde fiquei  várias noites observando a lua e as estrelas. Espero a hora do "breakfast" e depois virá o carro que vai me levar a Hoedspruit. 

Gostei daqui? Sim. Gostei do projeto, da maneira como tratam os animais. Já a parte da inclusão social... Pelo que vi, acho que eles (europeus, brancos) querem formar mão de obra para servi-los. As meninas Lilly e Lou fazem tudo direitinho e o Freddie também, mas acredito que nem percebem os olhares desconfiados das crianças.

As meninas que passaram esta semana aqui, são ótimas. Todas querem estudar na universidade. Prestaram atenção às aulas, fizeram os exercícios, foram à piscina diariamente, por vinte minutos, alimentaram os bichos... Quando perguntaram a elas o que elas mais gostavam de fazer, uma delas respondeu: comer. Será que ela come o suficiente em casa?  E a mesa de refeições delas era separada. Elas recebiam o prato feito. Não se serviam no bufê, como o pessoal da administração e os voluntários.

Agora, vou para Hoedspruit. Fico lá dois dias e depois, Capetown, por mais três dias. Finalmente, livre, leve e solta! Depois volto para o Brasil.

                                                                   ***

Esta noite, ventou muito. Os leões não zurraram esta noite. Me disseram que eles não zurram quando venta. Agora está tudo em silêncio.  Nenhum pássaro cantando, nem as galinhas d'angola, nem  cachorros latindo, nem insetos zunindo. Esquisito. Parece que os animais se calam para ouvir o vento. O que será que o vento diz pra eles? Estou curtindo o silêncio da savana, me lembrando das férias de minha infância passadas na fazenda... Quanta paz, quanta beleza, segurança, crença no futuro... saudade!

Pronto. As galinhas d'angola acordaram. Ouço os "tofracos". 

                                                                     ***

Agora, já tomei o café da manhã. Estou aqui sentada no varandão, esperando a Van que vai me levar. Já deram comida para os bichos e eu aqui, sem fazer nada. Tentei fotografar os esquilos, mas não consegui. Eles correm muito.

                                                                     ***

Aqui, neste sofá é o fumódromo. Sim, a diretora, a chefa e alguns voluntários fumam. Eu acho ótimo, porque assim ninguém reclama. A chefa até me fornece um cigarro todas as noites, após a janta.

                                                                    ***

Recomeça a ventania! Leões quietos. Acho que eles estão achando bom que eu vou embora... Pra falar a verdade, eu também estou achando bom. É ótimo ver os bichos, alimentá-los, "take care"... mas eu gosto mesmo é de gente. Pensando bem, eu preferiria ter ficado mais uma semana em Moçambique... Agora está quase na hora da Van. Adeus Daktari.

                                                                        ***









terça-feira, 25 de outubro de 2022

 

                                                                

                                                                CONCLUSÕES


O povo de |Moçambique é mais pobre, mais negro mais colorido e mais sorridente. Suponho que seja mais feliz. Ainda conservam vários vestígios da cultura original. 

O povo da África do Sul é mais rico e dividido. Metade são negros e pobres e a outra metade são brancos e ricos. São todos sérios. Raramente sorriem. Parecem mais tristes. Aparentemente, foram completamente ocidentalizados.

Essa opinião se refere apenas às cidades que vi: Maputo e Ponta D'Ouro em Moçambique e Hoedspruit e CapeTown na África do Sul.

Não consegui saber o quê os africanos do sul acham dos colonizadores.

Fui feliz em Moçambique e me senti desconfortável na África do Sul.

Mandela conseguiu acabar com o apartheid oficial, mas ele ainda persiste na vida real. Em Hoedspruit, no sábado pela manhã, com as lojas e restaurantes abertos, a maioria de pessoas no centro turístico era branca, mas à tarde, quando tudo fechou e só alguns restaurantes abriram, cidade estava cheia de negros. Apartheid com horário determinado. E em CapeTown, vários negros me alertaram para não atravessar uma avenida. Por quê?

Tanto em Maputo, como em Hoedspruit e em CapeTown, existem favelas cercadas por muros lindamente grafitados.

Não havia quase igrejas. Em Ponta D'Ouro, vi apenas uma igreja católica. Consegui assistir o fim de uma Missa. A única vez que vi os negros  cantarem, sem rebolar! Em Hoedspruit, vi apenas uma igreja, creio que luterana. Fui ver um culto. Só havia brancos. Em CapeTown, vi um templo, imagino que muçulmano, pelas letras escritas na porta. Não vi nenhum vestígio de locais dedicados ao culto de religiões dos povos originários. 

Em ambos os países, recebi lindos sorrisos cada vez que dizia que sou brasileira.

Finalmente, posso dizer que quanto mais viajo, mais acho que o Brasil é o melhor país. Mais gosto de ser brasileira!

Você já pode dizer eu li na tela da Eulina.

                                                                           ***






sexta-feira, 21 de outubro de 2022

 


                                                ALMOÇOS E JANTARES


Um passarinho entrou na sala. Pousou em cima de uma poltrona e ficou quietinho. Em seguida, veio a gatinha da Sara. Estava toda arrepiada e se preparava para dar o bote. Mas eu cheguei antes! Peguei o passarinho, tão pequenininho, senti seu coraçãozinho batendo forte. Ele me bicou, arranhou meu dedo. Eu o levei para a varanda, ele se soltou e voou sem olhar pra trás. A gatinha me olhou feio. Roubei seu almoço. Me vinguei do omelete.

                                                                          ***

Eu me referi várias vezes ao mercado. Não é uma construção, cheia de mercadorias arrumadas em vários balcões. É difícil descrevê-lo, mas eu vou tentar. São três ruas, vielas ou becos, bem estreitas, por onde só passam pedestres. As ruas são inteiramente ocupadas por lojinhas muito pequenas, muito coloridas, completamente abarrotadas com todos os tipos de mercadorias, alguns bares, empórios, salões de beleza, serviços eletrônicos, alfaiates, etc.  Vendem-se roupas, comidas, material de construção, existem até casas de câmbio, onde troquei meus dólares por meticais (moeda local).Tudo junto e misturado. É uma parafernália fenomenal de cheiros, cores, sons, e gente, muita gente. Mulheres vendedoras, vestindo capulanas e com os filhos nas costas... Homens apregoando suas mercadorias, crianças ajudando os pais no comércio... Tudo muito interessante. Na rua lateral ficam os restaurantes, perto de um grande braseiro, situado numa esquina, onde se assam as carnes... não sei como as pessoas não tropeçam no fogo e não se queimam! Na frente, fica uma espécie de feira livre, com frutas, verduras, legumes, ovos e ervas. Eu fui ao mercado todos os dias, para comprar alguma coisa, para comer num dos restaurantes, ou apenas para ver tudo. Adorei ficar passeando pela vielas e apreciando o caos organizado moçambicano.

                                                                        ***

A casa da Sara fica bem pertinho da praia. Fui caminhar quase todos os dias pela areia fofa. E nas partes menos frequentadas, a areia canta, tal qual a de Juqueí. Mas o oceano Índico, enquanto eu estive lá, era gelado. Só molhei até a canela. Não me atrevi a entrar. Venta muito! O vento faz barulho, encobre o barulho das ondas quebrando na praia. O barulho é contínuo, como se fosse um rio passando por entre pedras. Ponta do Ouro fica bem ao sul de Moçambique e é rota de baleias, que vêm ter seus filhotes na frente da praia. Então, se observamos o mar, podemos ver, com certa frequência,  as baleias brincando com seus filhotes, fazendo aquele esguicho. Dava pra ver da minha varandinha. Pena que eu não tinha binóculos.

                                                                        ***

Um dia, Gabriel, Rômulo e eu fomos almoçar num restaurante chamado Safari, que fica no topo de uma pequena elevação, no extremo sul da praia, quase na fronteira com a África do Sul. Foi uma linda caminhada de uns quarenta minutos nas areias da praia, ouvindo o barulho das ondas, quebrando nas pedras... depois um almoço bem gostoso, regado à cerveja local. Nós nos sentamos perto de uma grande janela, de onde ficamos observando as baleias brincando de esguichar água nos filhotes, enquanto o papo corria solto, bem gostoso... Na volta, viemos por uma estradinha bem cheia de árvores e plantas menores, que passa por um bairro distante da praia, onde ficam as casas modestas dos moçambicanos. Foi um dia perfeito! 

                                                                      ***

A Sara tinha convidados quase todos os dias. Era impossível passar por sua varanda, sem que ela me convidasse para um chá, uma cerveja, um petisco... Seus convidados eram sempre interessantes. Lá todos falavam inglês. Um dia, ela me chamou para uma festinha. Um jantar muito gostoso, com muita gente alegre... quase eufóricos. Reparei que vários tinham um objeto parecido com aqueles pimenteiros para pimenta do reino, onde se colocam os grãos, e depois de girar a tampinha, a pimenta vira pó. Pois bem, eles tinham esse moedor. E fabricaram vários cigarros com  as ervinhas moídas. Me ofereceram, eu não aceitei e perguntei se o fumo era permitido. Eles me responderam rindo que em Moçambique não, mas todo mundo tinha... e na casa da Sara era permitido.  Daí a pouco, a Sara veio com um saquinho cheio de cogumelos secos e me ofereceu um. Eu disse que não conhecia, nunca tinha experimentado, que no Brasil não tinha. Ela respondeu:

- This is imported from Brazil!

Fiquei toda sem jeito e acabei aceitando um pedacinho, bem pequeno. E, enfrentei os olhares atentos de todos, durante o jantar... Mas não aconteceu nada comigo. Só senti muito sono. Dei uma de cachorro magro. Acabei de jantar e fui dormir. Tive belos sonhos, dos quais não me lembro. Só me lembro de que acordei muito bem.

                                                                     ***

Um dia, depois de um jantar na casa da Sara, um dos convidados, um jovem bonito, de uns vinte e poucos anos, depois de algumas cervejas e de alguns cigarros feitos com o conteúdo dos potinhos moedores, começou a conversar comigo. Ele é africano do sul e conhecia Florianópolis, porque já tinha ido surfar lá. E continuou falando. Eu pedi pra ele falar devagar, umas três vezes. Não adiantou. Eu desisti. E ele falava, falava, eu entendia uns fiapos de pensamentos, ele estava falando sobre o mundo atual, sobre a solidão das pessoas... acho que era isso, e eu não sabia o que responder, só ficava olhando pra ele e pensando, um moço tão bonito, tão triste... e eu pensava o que posso dizer? Não entendo nada desse papo... a outra convidada foi embora e eu querendo ir embora também, mas o moço não parava de falar, e eu sem saber o que dizer... que situação! Então eu disse:

- Sometimes, life is very difficult, isn!t it?

Pra quê? Foi pior! Aí ele começou a falar da infância, dos pais... e eu fiquei mais aflita ainda, mais sem respostas pra ele... Mas a Sara, percebeu minha aflição e começou a tirar a mesa, os pratos talheres, e eu me ofereci para ajudar. Limpamos a mesa, enquanto o moço tomava mais uma cerveja. ao final, eu me despedi. Não sei como a Sara fez para dar boa noite para o rapaz. Ele estava hospedado lá mesmo, no quarto em baixo do meu. No dia seguinte, logo que acordei, senti o cheiro do cigarro do rapaz. Ele começou cedo. Muito triste.

                                                                   ***

Na última noite que passei lá, a mãe de uma das meninas do surf ofereceu um jantar na casa dela. Presentes, a mãe, o pai, duas irmãs, um irmão maior e outro de três aninhos, lindinho, bem pretinho, carequinha, a gente só via o branco dos olhos e o grande sorriso malandro! Seu nome é John Lennon! Mais uma tia e um bebê, filho da tia! Família completa! Família linda! Alegres, falantes, calorosos. Prepararam uma comida típica que é uma espécie de purê de mandioca, com molho de tomate, frango assado e uma carne moída cosida com gengibre, tomate e  (uau!) bastante pimenta. Eu repeti tudo, menos a carne com pimenta. Antes de servir a janta, a tia trouxe uma pequena bacia, uma jarra com água e uma toalha, para que nós  lavássemos as mãos. É o costume local, uma vez que todos comem as carnes com as mãos. Adorei conhecer a família! A casa pequena, com uma varanda onde foi posta a mesa. Tudo muito simples, mas tão rico, tão cheio de amor! 

                                                                   ***

Finalmente, chegou o dia de ir embora. O último almoço com Gabriel e Rômulo. Eles me deram uma mini pranchinha de surf, com meu nome gravado, que agora está orgulhosamente enfeitando minha estante de livros e lembranças. Que bom ter amigos do outro lado do mundo! Depois do almoço, Joel (o motorista) chegou para me levar até Maputo. Pegamos dois rapazes que também iam pra lá, para participar de um campeonato de surf. Antes de pegar a estrada,  Joel parou numa tenda que vende produtos para turistas e comprou um lindo chapéu de abas largas... e me deu! Fiquei emocionada, quase não tive contato com ele...  mas ele disse que foi muito bom ter tido a oportunidade de falar sobre a história de seu país. Muito bom mesmo fazer amigos do outro lado do mundo!

Você já pode dizer eu li na tela da Eulina.

  






 

quarta-feira, 19 de outubro de 2022

 


                                                       MOMENTOS DAKTARI



 Hora da janta. As meninas africanas ficam em uma mesa separada. Pedem algo. A diretora diz: 

- Peçam por favor! -  elas pedem por favor. A diretora atende o pedido e fala:

- Agora digam obrigado! - elas dizem. São obedientes, mas eu olho bem para suas caras sérias e desconfiadas. Falam com os olhos. Eu acho que dizem:

- Vocês brancos, vieram aqui, destruíram nossa cultura e agora querem nos impor a cultura de vocês!

                                                                            ***

Fui ao Safari do resort Makalali. Vi uma família de rinocerontes. Pai, mãe e o filhote. O filhote se assusta com o carro, que chegou bem perto deles... e começa a chorar! O choro parece de uma criança! A mãe esfrega sua cabeça na cabeça do filhote... não dá pra dizer que fofura... porque eles podem ser tudo, menos fofos... mas foi uma bela demonstração do carinho materno.

                                                                              ***

Estamos na lua quarto crescente. No Brasil ela tem a forma de um C. Em Moçambique, tinha a forma de um D, sem o tracinho vertical. Aqui, na África do Sul, parece um U invertido. Parece que está de ponta cabeça... Muito interessante, as posições da lua.

                                                                                ***

Uma das meninas puxa conversa comigo:

Ela - Você acredita em Deus?

Eu - Sim, acredito.

Ela - Ás vezes parece que eu não existo!

Eu - Por que?

Ela - Você viu como aquela nova voluntária nos cumprimentou?

Eu - Vi.- foi um cumprimento bem comum, fruto de boa educação. Ela quase nem olhou para mim nem para as meninas.

Ela - Você gosta de conhecer novas pessoas?

Eu - Gosto. 

Ela - Ás vezes eu gosto, às vezes não gosto. - ela continua me analisando - Às vezes eu sinto que pessoas brancas discriminam... Você acha que todos são iguais?

Eu  - Acho.

Ela - Brancos e negros?

Eu - Sim! Brancos, negros, amarelos, vermelhos...

Ela - Quem são os vermelhos?

Eu - Os índios.

Ela - Ah é! Os índios.

Eu - São todos iguais, você não acha?

Ela - Acho. Mas, alguns brancos não acham.

Eu - É... muito triste, isso.

Ela - Muito triste.

A menina negra, sul africana, com 14 anos de idade, e eu tivemos essa conversa, com muita dificuldade, porque foi tudo em inglês e eu tive que pescar palavras no meu pequeno vocabulário, para dar mais fluidez a esse assunto tão difícil... mas em síntese, foi isso. Quando foi embora, a menina me deu um abraço bem apertado! Amei.

                                                                       ***

No caminho para a minha cabana, tem um burrico todo branco. Parece triste. O funcionário que estava me levando ara a cabana disse:

 - He is blind!

- Is he albino?

- He is blind!

- But, is he albino?

- He is blind!

Tá certo. Ele é cego. Não vou encompridar a conversa. Mais tarde, o Google me disse que existem muitos burricos albinos e mostrou fotos de vários. Igualzinho àquele. Tadinho. 

                                                                          ***

O carro do safari para num ponto especial, para a gente apreciar o por do sol. Eu pergunto onde é o banheiro, me dirijo a uma pequena cabana coberta de sapé (ou algo parecido sapé) e tento abrir a porta. Giro a maçaneta, aperto, movo pra cima, pra baixo e... nada. A porta não abre. Mas tenho certeza de que está vago, porque a mulher que estava lá tinha acabado de sair... Eu ouço a guia do safari dizendo: do outro lado, do outro lado! Eu procuro o outro lado da porta e não vejo nada. Até que a guia veio até a porta, morrendo de rir e empurrou a porta. Eu estava puxando.

                                                                         ***

As cores daqui são todas terrosas. Com exceção dos amarelos brilhantes e vermelhos cor de fogo das auroras e dos crepúsculos, que são portentosos, todos os bichos, aves, construções e vegetação, tem cores que variam entre beje, marrom, marrom esverdeado, cinza e negro. Vi uma manada de búfalos, todos negros. lindos, bem perto da minha cabana. Galinhas d'Angola, bem escuras. As diversas variedades de roedores... sempre variando entre o branco sujo, cinza, marrom e preto. Rinocerontes, elefantes e zebras também. Dentre os bichos, única exceção são as girafas que tem manchas em tons de amarelo. Sinto falta das cores vivas das capulanas moçambicanas.


Você já pode dizer eu li na tela da Eulina.

terça-feira, 18 de outubro de 2022

         

                                                           

                                                  OPINIÕES DOS MOÇAMBICANOS


JOEL - Tem uma barraca no mercado e é o motorista do projeto. Perguntei o que os moçambicanos acham dos portugueses. Ele disse que gostavam… eu não senti firmeza na resposta…fui modificando a pergunta, até acreditar na resposta:

- Eles mandavam em tudo até 1975, quando ficamos independentes. Aí, muitos foram embora para Portugal. Os que ficaram espalharam intrigas. Chegou um momento que todo o país estava dividido: a favor e contra os portugueses! A divisão foi tamanha, que deu origem a uma guerra civil que durou muitos anos. Foi horrível, ver meus compatriotas, meus irmãos se agredindo… eu vi famílias inteiras, cidades inteiras fugindo como galinhas… crianças chorando porque não sabiam onde encontrar os pais e os pais chorando porque não sabiam onde encontrar os filhos! Tudo muito, muito triste… até que todos perceberam que irmãos não podiam lutar contra irmãos e fizeram um acordo de paz. Aí, a vida melhorou. Agora, a vida está boa. Conseguimos manter relações amigáveis com os portugueses que ficaram aqui, e até acontecem alguns casamentos, afinal eles fazem parte de nossa história. Mas eles são racistas.

VITÓRIA- Diarista na casa da Sara e mãe de uma das meninas do surf. Fiz a mesma pergunta. O que você acha dos portugueses? 

- São bons … eu não senti firmeza, mas ela não precisou de novas perguntas, foi logo dizendo… bons, mas algumas vezes eles não gostam da cor da nossa pele...

-São racistas? 

- Sim. São racistas.

MARINA - brasileira, residente há anos em Maputo, onde dormi uma noite, antes do voo para Joanesburgo. Ela é terapeuta ocupacional, professora na universidade e namora um moçambicano, artista gráfico. Ela disse:

- Portugueses são racistas O povo daqui conviveu muito tempo com eles na época da colônia e isso gerou alguns laços afetivos, mas os moçambicanos acham que eles são racistas. E depois da independência, veio a guerra. A guerra foi muito triste, muito traumática, deixou grandes feridas, marcou muito. Mas agora, depois de algum tempo, o povo vive melhor. Moçambicanos são muito acolhedores e gostam muito de brasileiros.

GIL - motorista de tuktuk que me levou para o aeroporto de Maputo. Nem precisei perguntar muito, foi logo falando:

- Eles são racistas. Se acham porque são brancos. Ainda temos muitas relações  comerciais com eles e algumas relações afetivas. Atualmente, até acontecem alguns casamentos... mas eles são racistas.

SARA - inglesa, a dona da casa onde fiquei, mora há mais de vinte anos em Ponta  D'Ouro:

- Foram muitos anos de convívio. Os portugueses fazem parte da história deste povo. Tinham muitas relações afetivas... mas a guerra fez muito mal a todos. Atualmente, vivem em paz. mas acho que existe um certo ressentimento em relação aos portugueses.

VISÃO GERAL - Em Ponta D'Ouro, vi muitas casas grandes bonitas, hotéis e restaurantes chiques, frequentados por brancos, loiros falando inglês. Com exceção dos que trabalham no mercado e vendem artesanato,  não vi nenhum negro nesses lugares, mas me disseram que há alguns, na maioria políticos. O presidente da república e alguns ministros têm casa em Ponta D’Ouro. 

E os moçambicanos negros que falam português e chananga, moram em casas bem modestas, Num bairro que fica longe da praia. Têm barracas no mercado e são os serviçais nas casa dos brancos, nos restaurantes e hotéis.

Chananga é o dialeto falado pelos moçambicanos, derivado do zulu. Tanto os moçambicanos, como os africanos do sul faziam parte dos povos originários, os zulus.

CONCLUSÃO - minha:

- Qual é o motivo, a ideologia, a religião, a seita, a política, ou... seja lá o que for... que autoriza o povo branco de um país, ou continente a invadir outras terras, outros continentes, dominar seus povos e exportá-los para servir de mão de obra escrava? 

Você já pode dizer eu li na tela da Eulina.