segunda-feira, 12 de agosto de 2019







                                                             O  MONSTRO

                                                          
              Ele entrou no meu quarto. Magro, muito magro. Luminoso, quase transparente. Olhos em chamas. Ou melhor, um olho em chamas e o outro em lágrimas. Acho que tinha chamas nos dois olhos, mas as lágrimas apagaram as do olho esquerdo.
          Tenho medo. Ele tenta me acalmar, emitindo raios azuis com as mãos esquálidas. Os raios são calmantes. Eu sossego um pouco. Só um pouco. Pelo menos, paro de tremer.
          Ele chega mais perto - Ai, meu Deus! - Move suas longas pernas e faz gestos com seus longos braços – Jesus! - Não emite som algum, mas parece estar gritando. Eu permaneço deitada em minha cama, imóvel, inerte, sem saber se estou muito curiosa ou muito apavorada.
           Quero saber quem ele é, ouvir sua voz, perguntar de onde veio e o que quer comigo. Mas as palavras morrem na minha garganta. Não digo nada. Fico só olhando aquele assustador conjunto de ossos luminosos, cobertos por uma carne quase transparente, que vem se aproximando devagar gritando silenciosamente e me olhando com seus olhos de fogo e água.
          Reúno todas as minhas forças. Quem sabe se eu conseguir falar alguma coisa, ele me responde? A curiosidade vence o pavor:
- Quem é você? – voz trêmula, fraquinha, fraquinha, quase inaudível.
- Sou o seu ódio! – voz forte, porém macia. Não está gritando em silêncio, como eu achei que fazia.
- Meu ódio?!?! – espanto - Como?
- Moro dentro de você! – agora, ele grita!
- Não!!!  Eu não quero isso, não tenho nada tão horrível dentro de mim! - Percebo que quem grita em silêncio sou eu.
- Ha, ha, ha – risada medonha – ninguém admite nem gosta de seus próprios ódios! – Seu olho direito cospe chamas.
- Eu não tenho ódios!!! – grito com todas as minhas forças.
- Não? – mais risada - Nem quando seu homem vai beber com os amigos?  E quando alguém te dá uma dica de chá para emagrecer? E quando seu cabeleireiro erra a mão e corta demais o seu cabelo?
- Mas, eu não... –  grito indignada, mesmo sabendo que não sou ouvida.  Continuo gritando. Só interrompo quando percebo que ele está ficando cada vez mais e mais transparente e seu olho esquerdo chora lágrimas ferventes, que evaporam, fazendo uma nuvem negra, tenebrosa. Ele está desaparecendo atrás dessa nuvem.
- Ei! Não vá embora! Me escuta! Eu não... – grito, grito, em silêncio.
          E ele, sempre rindo sua risada cavernosa, fala com sua voz macia:
- E “aquela” mensagem no WhatsApp?
- Ai, que óóóódiooo!!! – grito sem perceber.
- Ha... ha... ha... viu?
          E some. Resta apenas a nuvem negra.
                                                                                  ***
         - Você outra vez? – já falei brava.
- Quase – voz cavernosa.
- Como assim, quase?
- Eu mudei um pouco...
          Observo melhor. Agora que admiti que tenho alguns ódios, não tenho mais tanto medo. Ele não está mais tão magro. Olhando bem, até parece meio gordinho. Nem tão transparente, está mais consistente, mas os olhos... ah... os olhos continuam ameaçadores. Agora trabalham em conjunto. Ora cospem chamas, ora choram lágrimas ferventes.
- Por que você voltou? - atrevo-me a perguntar.
- Eu vi a carta que você recebeu.
- A da Embaixada?
- Essa mesmo. Você não vai abrir? – ele não fala, ele vocifera! Seus. olhos piscam labaredas!
          Reúno minhas forças para responder.
- Tenho que abrir, mas...
- Mas... – ele se aproxima gritando.
           Eu me encolho. Ele arregala os olhos. Posso ver suas lágrimas, antes de ferverem! Tenho medo, pavor, estou paralisada. Ele vai chegando cada vez mais perto...
- Não! – grito e não ouço o meu grito - Não chegue tão perto! Fique longe de mim!
- Sua boba! Eu moro dentro de você, esqueceu? Não chegue perto... ha... ha... ha... Diga logo, vai ou não vai abrir a carta? – Sua voz parece um trovão, uma ventania, uma tempestade!
          E a tempestade se aproxima. Eu aterrorizada segurando a carta com mãos trêmulas... ai meu Deus, tenho que abrir a carta, senão...
          Nesse momento, outro estrondo, um pé de vento! A janela se abre e a carta...
          A carta voa!
          O monstro cospe fogo com os olhos, depois chora vendo a carta ir embora levada pela ventania.  Ele fica ainda mais feio, mais ameaçador, mais tenebroso... e diz, antes de sumir na nuvem negra:
- Agora, eu sou sua curiosidade!
                                                                      ***
          Ele novamente no meu quarto! Quase não o reconheço!
- Você de novo! Nossa, como você está diferente! – meu medo sumiu!
          Fico olhando admirada. Está gordo, não é mais transparente, seus olhos não têm mais fogo nem água, são verdes. Embaçados, aguados, enfumaçados, opacos, que se mostram alternadamente com assustadores buracos negros vazios... Os buracos tem um poder de sucção, eu me seguro para não ser sugada.
          Os olhos me olham durante os momentos em que se mostram... Ele até sorri um pouco... parece estar me convidando, mas se eu me aproximo, os olhos se esvaziam e os buracos negros me chamam... Meu pânico retorna! Estou toda aterrorizada, na defensiva.
- Vá embora, não quero mais você! – falo comum fio de voz – não quero mais você dentro de mim!
- Eu volto para o meu lugar, mas só porque o seu pânico reapareceu. Mas um dia, você vai me aceitar!  Vai perder todo o medo! Nesse dia eu vou embora para sempre.  – Ele está manso, sorridente, gordinho e com olhos inteiramente visíveis.
- O quê?!?!?  O quê é que tem uma coisa de ver com a outra?
          Ele fica todo gordinho, fofo, sorridente, voz macia, simpático. Parece inofensivo, mas meu pânico recomenda permanecer desconfiada. 
 - Agora eu sou o seu tédio!
          E some.
          E eu descubro que esse é o maior dos perigos.
                                                                           ***
          Tarefa 1: Criar e descrever um personagem. Fazer crônica, mini conto ou poema com esse personagem.
Tarefa 2: o personagem recebe uma carta.
Terefa 3: finalizar.






                                                           A  LENDA


                                                               Silvia
          Silvia olha para o marido deitado ao seu lado. Seu olhar é uma interrogação. Sua mente também. Como entender o marido? O que se passa na cabeça desse homem? Por que seu passado é tão misterioso? Por mais que tente, não consegue entender. Aliás, é difícil até de acreditar.
                                                              Pedro
          Mesmo adormecido Pedro tenta não sentir pena de Silvia. De seus inúteis esforços para compreendê-lo. Na verdade, Pedro se culpa pelas incertezas de Silvia, mas não consegue evitá-las. Suas poucas lembranças o perseguem.
          As memórias de sua infância, pés descalços no chão de terra vermelha, a mata cheia de mistérios... naquela época, a vida era o momento. O sol na pele nua, a flechada certeira na caça para o almoço,  as danças de roda na noite estrelada, o frescor das águas dos pequenos rios e o temor das águas dos grandes rios estão sempre presentes em sua mente. Principalmente o temor das águas dos grandes rios, morada da Yara tão bela, tão amada... Pedro sorri, enquanto dorme.
                                                               Silvia
          Silvia sabe que o sorriso vai se apagar e dar lugar a um  doloroso espasmo. Já vira essa cena inúmeras vezes. Ah, como ela queria entender!
                                                              Pedro
          Pedro também queria entender. Mas as lembranças não o ajudam. Por mais que tente, as memórias de sua infância terminam abruptamente e são seguidas por um vácuo, um negror, um nada cheio de vento escuro, uivante e devastador. Nesses momentos, Pedro geme.
                                                               Silvia
          Silvia não o acorda. Ela sabe que não consegue. Pedro abre os olhos, se vira na cama e dorme novamente. Tantas vezes ela tentara, tantas vezes não conseguira.
                                                            Pedro
          Passada a ventania, Pedro já era jovem. No mesmo local, mas completamente diferente. As matas são menores. Ao invés de campos há casas e quintais, ao redor dos pequenos rios há plantações e ao invés da pele nua ao sol, roupas muitas roupas. Todas as pessoas cobertas de roupas passeando por ruas pavimentadas com pedras, tudo tão diferente do povo nu enfeitado de penas dançando no chão de terra vermelha.
          A terra vermelha permanece, assim como os grandes rios. Pedro força a lembrança, mas as imagens vão desaparecendo sumindo, se esvaindo num redemoinho cheio de sons, luzes, fatos, memórias, tudo girando numa ventania, num turbilhão poderoso, onde Pedro se perde mais uma vez.
                                                               Silvia
           Ela continua olhando o marido. Ele geme, mas ela sabe que logo vai parar. Foi sempre assim. Desde que se se conheceram. Ele era tão bonito! Moreno, corpo atlético, cabelos e olhos escuros. Ela se apaixonou imediatamente e depois de tantos anos juntos, ela aprendeu a aceitar suas esquisitices.  Até se acostumou com o mistério de seu passado. Mas o que mais a intriga é a juventude de Pedro. Enquanto ela ganha quilos, rugas e cabelos brancos, Pedro continua jovem, belo, atlético e fogoso.  Atualmente, parecia seu filho! E seus pesadelos estão aumentando. Os primeiros eram raros, ela  assustava quando via. Queria ajudar, se preocupava, ia com Pedro às  consultas de médicos, psiquiatras, homeopatas, holísticos, achava que teria tratamento... tudo em vão. Depois se acostumou. Viu que era assim mesmo e não se assusta mais.
          Silvia não sabe nada sobre o passado de Pedro. Porém não tem motivos para se queixar. Tem certeza absoluta da fidelidade dele. E ele sempre se mostra tão apaixonado quanto nos primeiros tempos do casamento. Ela fica triste por não ter filhos, mas com certeza não foi por falta de empenho. Simplesmente os filhos não vieram. Pedro não se importava e ela acabou por se conformar. Mas continua tendo vontade de saber o passado de seu homem.
                                                                Pedro
          Os pesadelos estão se tornando mais e mais frequentes. E ele sabe que assim será até que... Pedro ama Silvia, mais do que amou outras mulheres perdidas na ventania de seu passado. Fica triste só de pensar em deixá-la. Mas sabe que é preciso. Procura cobri-la de carinhos e mimos para compensar o seu futuro sofrimento.
Mesmo sem compreender, Pedro sabe que seu tempo está no fim.
                                                                 Silvia
          Ela não entende. Seu amado, seu companheiro, seu querido marido, tão bonito, tão carinhoso, à medida que ela fica mais velha e feia, ele fica mais dedicado, apaixonado e misterioso. E com o sono cada vez mais agitado.
                                                                 Pedro
- Silvia eu preciso viajar, fui designado para coordenar uma pesquisa com os índios do Pantanal Você quer vir comigo?
          Ele quer que ela aceite. Deseja desfrutar de sua companhia mais uma vez.
- Que bom! Adoro viajar com você! Quando vamos?
- A equipe vai daqui a quinze dias. Mas eu proponho irmos uma semana antes pra passear pela região. Uma nova lua de mel, o que você acha? – ele sorri o seu melhor sorriso.
- Ah, Pedro, que delícia! Claro que eu acho ótimo!   Vou fazer as malas já!
                                                                     Silvia
          “Que lindo é aqui! Devíamos ter vindo mais vezes... mas daqui por diante viremos mais. Essa pesquisa com os índios ainda vai render muitas viagens... O passeio de hoje, que maravilha! Primeiro a mata, a sombra das árvores, o som dos pássaros... depois o rio de águas tão claras, o banho na cachoeira, aquela explosão aquática na cabeça... e a companhia tão gostosa de Pedro, tudo perfeito!”
          Perfeito, mas cansativo. Silvia volta para o hotel. Quer tomar um banho e se preparar para o jantar. O jovem Pedro quis ficar mais um pouco.
                                                                    Pedro
 - Sim estou pronto. Eis-me aqui novamente.
           A mesma terra vermelha, a mesma mata cheia de pássaros, a mesma cidade com ruas de pedras... só que agora, com muito mais gente, casas e hotéis. Apesar de não haver pessoas nuas com enfeite de penas, Pedro sabe que o lugar é esse e o momento é agora.
          Pedro caminha pela mata. Tira toda a roupa, não vai mais precisar dela. Aquece seu corpo nu aos últimos raios de sol e caminha descalço sobre a terra vermelha até a margem do  grande rio.
 - Está certo. É aqui mesmo. – ele está tranquilo.
          Pedro pensa em Silvia pela última vez e se atira n’água. O turbilhão o engole.
                                                                           ***
Tarefa: O personagem principal deve ter pelo menos 500 anos.




                                 AQUECER A LAREIRA NUM DIA FRIO DE INVERNO

          Agora, estou aqui, neste estado, toda infectada por esta doença incurável, esperando o meu fim, sendo lentamente corroída. Lembranças, lembranças são só o que me resta... revivo os momentos felizes quando eu era bem jovem, no quarto das crianças, o alegre alarido das risadas durante o dia, Belinha e João pulando nas camas, se acabando de tanto rir -  ai, como minhas pernas coçam -  depois os quartos deles foram separados, Belinha ficou com o quarto maior e eu fiquei com ela, recordo seu primeiro namorado, o Serjão, garoto comprido, magrelo, cheio de espinhas, que pulava a janela para visitar Belinha escondido dos pais dela... ela ainda com cara de criança, longas tranças,  eles trocavam beijinhos inocentes e eu os observava... - antes, bem antes de sentir essas agulhadas no meu corpo, eu os achava  divertidos... -  depois ela foi crescendo, já não tinha mais tranças e sim um rabo de cavalo, passava horas em frente ao espelho, testando novas maquiagens, fazendo caras e bocas, tudo ao som dos sucessos do momento... às vezes ela dançava freneticamente, sempre tão bonita, tão graciosa,- Jesus, e essa coceira, agora nos braços! – até que, já com os cabelos curtos, ela apaixonou-se por Roberto que também entrava pela janela, mas seus beijos  nada tinham de inocentes, muito pelo contrário e seus abraços cada vez mais longos e ardentes, acabaram por resultar numa gravidez indesejada. A barriga de Belinha foi crescendo e sua expressão foi se entristecendo à medida que as visitas de Roberto iam rareando. Meu Deus, todo o meu corpo pinica, arde coça, os remédios que me dão não fazem efeito...  – eu me lembro também do dia em que houve um rebuliço, trocaram todos os móveis de lugar e introduziram um berço onde Betinho dormia. Esse arranjo durou alguns anos, até que Betinho cresceu e se transformou num lindo garotinho, bem parecido com a mãe. Vi Belinha se tornar uma mulher de negócios, bonita e competente, mas triste... até que apareceu o Bruno. Ele entrava pela porta, tinha o rosto sério e bondoso, brincava com Betinho e tratava Belinha com muito carinho. Esse foi um tempo bom, tranquilo – mas foi quando comecei a sentir as primeiras coceiras – eu gostava de ver os três juntos cantando enquanto Bruno tocava violão! O quarto até se iluminava! Minhas coceiras foram aumentando e os vários tratamentos que me receitaram não fizeram o efeito desejado. Um certo dia, começaram a esvaziar os armários... no dia seguinte levaram o guarda roupa depois a cômoda, as cadeiras e por fim as camas de Belinha e Betinho. Eu não entendia nada, por que será que estavam levando tudo? E eu? O Que vai acontecer comigo? Essa aflição não durou muito. Depois de removidas as camas, Belinha apareceu, olhou o quarto vazio com um ar tristonho... ela estava se despedindo e eu ainda querendo entender, quando ela sentou-se em mim mais uma vez, alisou o tecido do meu estofamento já bem velho e gasto, e prometeu que eu seria reformada e iria morar com ela na casa nova. Mas isso nunca aconteceu porque quando o lustrador veio me ver, disse que a minha doença já estava muito avançada e que não era possível a recuperação... Então, me puseram aqui, neste quarto escuro, onde fico esperando que venham me buscar para aquecer a lareira num dia frio de inverno.
                                                                         ***
Tarefa: Produzir texto, exprimindo pensamento contínuo, sem diálogos, sendo que o personagem principal está alterado.

sexta-feira, 9 de agosto de 2019


                           






                                                               PAFÚNCIO


          Dasdores grita:
- Pafúncio, vem cá!
           Silêncio. Ela grita mais alto:
- Pafuncio! Vem cá agora!
           Nada. Ela esgoela:
- PAFÚNCIO!
- Tô indo, caralho!
- Pafuncio, não fala merda!
- Eu falo o que eu quero pôrra!
- Não te ensinei a falar essa bosta de palavrões!
- Não ensinou? E esse monte de palavras cagadas que você diz?
- Palavras cagadas!?!?
- Merda, bosta... é o que você caga não?
- Mas você diz palavrões muito mais feios!
- Não! Não! O palavrão mais feio é esse nome que você me pôs. Já disse que meu nome é James!
- Pafúncio! – ela ri – James é pior do que cocô!
- Meu nome é James, sua puta!
-  James... James é nome de viado!
- Viado é seu pai e você uma sapatona!
- Você é um ingrato! Se eu não te adotasse, agora você tava preso!
- Era muito melhor! Tava num navio porreta viajando pelas ilhas do Caribe...
- E não ia poder sair do navio, seu babaca!
- Babaca é você! Eu ia sim sair, no ombro de um pirata fodão e conhecer muitas putas muito mais bonitas e gostosas do que você! Putas de luxo!
- Pafúncio, cala essa boca suja!
- Então pare de me chamar de Pafúncio! Esse é o pior palavrão de todos!
          Dasdores dá uma gargalhada cruel.
- Pafúncio! Pafúncio! Pafúncio!

                                                                            ***

Tarefa: Texto contendo mais de meia dúzia de palavrões.









                                                          ABRAÃO


          E o Senhor disse a Abraão:
- Tu me amas?
          Abraão responde:
- Mais que tudo Senhor!
- Então traga seu único filho Isaac até a terra de Moriá, onde te indicarei o lugar onde deves sacrificá-lo em holocausto.
- Assim será, Senhor.
          E assim foi.  Abraão fez como o Senhor havia determinado. Chamou o filho, colheu lenha para o holocausto e ambos dirigiram-se à terra de Moriá.
          Chegaram após três dias de viagem. Abraão erigiu um altar com pedras, onde deitou seu filho sobre a lenha empilhada. Porém, antes que ateasse fogo dando início ao sacrifício, um Anjo do Senhor apareceu e disse:
- Abraão! Já deste prova suficiente de teu amor ao Criador. Poupa teu filho do fogo. Sacrifique uma ovelha no lugar.
          Assim, uma ovelha que pastava por perto foi imolada e oferecida em holocausto.
          A Bíblia não diz nada sobre o sofrimento de Abraão. Só menciona que ele ao responder às perguntas do filho, dizia que Deus proveria o cordeiro que devia ser imolado.
                                                                       ***
          Para mim, essa história é um dilema insuportável: matar o filho ou desobedecer a Deus? Que terríveis consequências seriam desencadeadas pela desobediência? Seriam mais terríveis do que ter sido o agente da morte do próprio filho?
          Mesmo acreditando em alguma divindade, é difícil imaginar uma prova de amor tão cruel! E mais difícil ainda, ver a obediência cega por parte de Abraão. Por mais que eu pense no assunto, não chego a uma explicação que possa ser expressa em palavras. E qualquer sentimento que eu imagine, seria tão grande e tão doloroso, que não me aventurei sequer a pensar nele, muito menos a descrevê-lo.
                                                                      
                                                                        ***
          Pensei muito nesse assunto, há alguns anos, quando estive em Baku, capital do Azerbaijão. Baku é uma cidade grande e bonita que está sendo modernizada pelos governantes, após a queda da União Soviética, ocasião em que o Azerbaijão se tornou um país independente e livre.
          Passeando pelas ruas da cidade, de tempos em tempos, eu me deparava com um curral, cheio de ovelhas. Fiquei intrigada e, ao perguntar para um amigo brasileiro que morava lá, fui informada de que as ovelhas seriam mortas no dia da festa de Abraão. Foi a primeira vez que ouvi essa história.
          E assim foi. Quando chegou o dia da festa, os chefes de família se dirigiram aos donos dos currais para escolher uma ovelha. Uma vez escolhida, a ovelha era degolada ali mesmo no meio da rua. Uma bacia colocada em baixo recolhia o sangue. Depois de retirada a pele, o comprador levava a ovelha para fazer um churrasco e comemorar com a família. As peles ficavam dependuradas num varal. As ruas próximas aos currais ficaram cobertas de sangue.
          Concluí que nem muitos anos do ateísmo soviético não conseguiram tirar do povo as crenças e costumes bíblicos.
           Crenças absurdas e costumes bárbaros.

                                                                           ***








                                                        DILEMAS
                                                                                                                                   

se gosto não devo
e se devo não gosto

se posso não quero
quando quero não posso

se penso não faço
quando faço não penso

se me esforço e consigo
quando consigo me arrependo

se venço não gozo
quando gozo não venço

se fujo me canso
me canso e me entrego

se enriqueço me culpo
quando me culpo empobreço

 tudo enfim
é assim

Ai que preguiça...

                                                                             ***

Tarefa: Produzir texto sobre um dilema.

quinta-feira, 8 de agosto de 2019




                                             


                                                     CORRESPONDÊNCIA



          Querida Mamãe,


          Como você está? A sua dor nas costas está melhor? E a nossa Mirassol como vai?
          Eu fiz uma boa, mas cansativa viagem. Afinal, são trinta e duas horas no ônibus! Mas eu conheci um moço bem simpático de Rondonópolis, que convenceu a senhora que estava do meu lado, a trocar de lugar com ele.  Ele é muito legal, veio pra São Paulo estudar no mesmo cursinho que eu! Olha que coincidência! O Nome dele é Valdemar. Dema. Ficamos amigos.
          Cheguei bem. A casa da tia Zulmira fica na vila Sonia. Dá pra vir de metrô até o Morumbi. Depois ônibus ou taxi. Eu vim de ônibus. Mais barato. A gente desce do ônibus na frente de um mercadão e à direita do mercado, tem uma viela. A gente entra na viela e no fim, já é a rua da tia. A casa dela é a última da rua. A rua é curtinha e tem casas só de um lado, porque do outro, tem um riacho. As casas são pequenas, nem bonitas, nem feias. Sobradinhos comuns. A da tia Zu é a mais bonita da rua. Ao lado do riacho tem um grande terreno todo plantado, com muitas arvores e arbustos floridos, parece uma floresta com caminhos pra gente passear. Muito jóia! Me disseram que um morador japonês plantou a maior parte das árvores e cuida do lugar. Toda a vizinhança gosta dele.
          Tia Zu é legal. Me acomodou no quarto que era da filha dela, aquela que morreu quando eu era criança. Depois, o neto dela também morou neste quarto por um tempo. Agora é minha vez. O quarto não é muito grande, mas tem bons armários e é muito arejado e ensolarado. Todas as minhas coisas ficarem bem acomodadas e tem uma escrivaninha para eu estudar. Estou contente aqui.
          A comida da tia Zu é bem parecida com a sua. Bem se vê que aprenderam com a vovó. Mas a tia faz alguns pratos mais sofisticados, quando convida pessoas para o almoçar no fim de semana. Eu vou convidar o Dema pra vir conhecer este bairro e almoçar aqui num domingo. Ele está morando numa república na Vila Madalena, e come fora todos os dias. Vai gostar da comida da tia Zu.
          Minhas aulas vão começar na próxima segunda feira. Não vejo a hora de conhecer mais gente. Os amigos da tia Zu são todos velhos. E também vou encontrar o Dema todos os dias.
          Logo o metrô chega aqui pertinho. Por enquanto chegaram só as obras. Tia Zu disse que o trânsito piorou muito por causa dessas obras. Mas vai melhorar. Tomara que melhore mesmo, porque agora é um inferno! Daqui até o cursinho, eu demorei duas horas no dia em que fui conhecer o prédio. É muito tempo perdido. Tomara que o Dema não desista de vir aqui por causa do trânsito. Mas quando o metrô chegar, vai melhorar tudo, porque não vou mais precisar tomar o ônibus.
         Ai mãe, tem uma coisa horrível! Os vizinhos barulhentos... não sabem falar baixo! Só conversam aos gritos. Ficamos sabendo de todas as fofocas de sua enorme família e quase participamos de suas brigas. É um saco. Dá vontade de mandar todo mundo calar a boca! Pelo menos, não é sempre que eles estão em casa. É melhor não reclamar pra não arranjar encrenca com vizinhos, diz tia Zu.
          Eu não vejo a hora de convidar o Dema para vir aqui. Acho que ele vai gostar.
          Ah! Esqueci de contar! Do ouro lado, tem uma creche. Então, durante a semana, escutamos o barulho das crianças na hora da entrada, da saída e no recreio. É bem gostoso, bem melhor do que os vizinhos. E no terreno dos fundos, tem um galinheiro. Todas as vezes que o galo canta, eu sinto saudade de casa.
          Bom mãe, já contei todas as minhas novidades. Estou torcendo pra você aprender logo a usar o Whatzapp porque assim, nós vamos poder trocar mensagens todos os dias e eu não preciso mais escrever cartas tão compridas.
           Mande notícias suas, do pai, do Junior e da Nequinha.  Eu amo vocês. Saudade de todo mundo. Sua bênção, mãe!
                                                                                    Muitos, muitos beijos da sua filha,
                                                                                                                                     Tati

                                                                           
      Oi Mãe!                                                                                                                                                              
       Tudo bem?
       Assim que você aprender, mande mensagens pelo I phone. Eu fiz boa viagem. Tinha uma menina de Mirassol no ônibus, ela é falante e bem bonitinha. Me convenceu a trocar de lugar com uma senhora que estava do lado dela. Vamos fazer o mesmo cursinho. Acho que ficamos amigos. Eu ainda não contei pra ela sobre o Serginho. Você acha que eu devo contar? Eu estou bem. As aulas vão começar logo.
                                                            Beijos e abraços pra todos.
                                                                                                      Valdemar
P.S.  Sua bênção, mãe!
                                                                                  ***


Tarefa: Texto contendo a descrição do seu bairro.