quarta-feira, 21 de agosto de 2019






                                                   ERA UMA VEZ UMA CABRITINHA

          Nasceu na América do Sul, no começo da selva amazônica, ao pé da Cordilheira dos Andes.
           Era curiosa. Era obstinada. Resolveu que queria subir os Andes. Queria chegar bem perto do céu. Queria ver o horizonte bem longe.
          Vivia com a família, nos vales úmidos, perto dos rios encachoeirados que vão crescendo e se juntando para formar o Amazonas. Era uma bela paisagem. A cabritinha gostava. Mas continuava querendo subir as montanhas. Ela achava que quando visse o mundo do alto, saberia muito mais coisas e seria muito mais feliz. Na verdade, a cabritinha queria saber mais. Achava que a felicidade estava na sabedoria.
          E foi crescendo. Sempre com a mesma ideia. Sempre se preparando para subir as montanhas.
          Até que um dia,  sentiu-se suficientemente forte. Achou que estava preparada. Despediu-se da família, juntou-se a um bando de outras cabritas que também queriam subir e partiu. Andou, andou, com muitas cabras, bodes cabritos todos muito animados com as aventuras que os esperavam.
          No começo, foi muito divertido. Iam todos contando histórias, rindo, cantando...  Depois de uns dias, começaram a reclamar do cansaço, do desconforto, mas ainda estavam imbuídos do mais alto espírito aventureiro. Na verdade, o grupo se encorajava mutuamente, quando um ameaçava desanimar, os outros o encorajavam.
          E assim foram subindo, subindo. Os caminhos se tornavam mais difíceis, as subidas mais íngremes. O cansaço foi aumentando. E o descontentamento também. Quando o primeiro desistiu, foi uma comoção. Todos ficaram em silêncio. Ficaram se questionando:
- Será que eu consigo? Será que eu quero?
          Mas a nossa cabritinha não desanimava. Era obstinada. Continuava firme no seu propósito. Queria chegar no alto, ver o horizonte de longe. Queria saber mais.
          O tempo foi passando, e mais e mais cabras, bodes e cabritos foram desistindo. Os primeiros justificavam a desistência, davam explicações. Depois, não havia mais necessidade de explicação. Desistiam e pronto. O grupo foi se tornando cada vez mais reduzido.
          O caminho, a cada dia mais difícil, árido, gelado, o ar rarefeito, quase não havia vegetação e o grande número de pedras soltas tornava a jornada mais perigosa. Mas a nossa cabritinha não desistia.
          Às vezes ela ficava apreensiva:
- Será que dou conta? Será que terei forças? Estou tão cansada, tenho tanto frio... e então aparecia um amigo para reanimá-la. Assim como ela também reanimava os amigos que fraquejavam.
          Ela olhava a paisagem cada vez mais do alto. Sua vista alcançava cada vez mais longe... via as cidades, os vilarejos, as estradas, os campos, as outras cabras, tudo cada vez menor, mais distante. O mundo lhe parecia tão belo, tão pacífico, a vida tão simples, bastava caminhar, comer e descansar, para ter acesso a toda aquela beleza, toda aquela paz... Esses momentos valiam todo o esforço. E a cabritinha se sentia recompensada. Sentia que estava aprendendo muito, que estava no caminho certo, que era isso mesmo que ela queria.
          E nesses momentos, sua alegria era tanta, que ela queria repartir com todos os   companheiros! Era alegria demais, não cabia dentro do peito, tinha que ser dividida, partilhada!
          Mas... toda essa felicidade tinha seu preço. Os poucos amigos que restavam, estavam muito ocupados com suas próprias jornadas. Já não andavam mais em grupo... ela os encontrava somente nas paradas de descanso, quando procuravam algum lugar seguro para pernoitar. Estavam sempre tão cansados que pouco se falavam. Ela procurava lembrá-los da animação do começo, das cantorias, das histórias e risadas, mas quando percebia, eles já estavam dormindo e não dava tempo de falar das belezas que tinha encontrado pelo caminho. Quando havia algum problema, ela ainda tinha ajuda. Mas era uma ajuda eficiente e silenciosa. E então, ela compreendeu que só tinha companhia nos momentos difíceis. As alegrias eram solitárias.
          Porém ela não desanimava. Continuava a subida. Estava resolvida a ver o mundo do alto. Queria continuar subindo. Queria continuar aprendendo. E ficava cada vez mais só.
          E é assim até hoje. A nossa cabritinha continua subindo. Continua aprendendo. Já não avista quase ninguém. Quando tem oportunidade de olhar a paisagem, fica deslumbrada. Continua curiosa. Continua persistente. Continua solitária. Mas está também mais forte! Mais certa de que encontrou o seu destino! E - por que não? – cada vez mais feliz!
          E espera que quando chegar ao fim da jornada, encontre outros cabritos curiosos e persistentes para compartilhar o deslumbramento com ela.

quarta-feira, 14 de agosto de 2019





                                          A DIFÍCIL TAREFA DE EDUCAR II

- Mas eu já te disse milhões de vezes!
- Mãe, esse é um super exagero!
- E você é  hiper desobediente!
- E você é mega chata!
- Eu vou é te dar um blaster castigo!
- Não mãe, aquele não! Eu te imploro!
- Sim! Zilhões de vezes sim! Você vai ficar sem  tablet e  sem celular, por trezentos dias!
- Ah mãe, eu vou ficar doente de solidão!
- Que é isso, menino? Voce tem mais de um milhão de amigos!
- Mas são virtuais! Em carne e osso eu só tenho a Glorinha, que é chata, chatíssima, chatérrima!
- Então vai logo arrumar o seu quarto, senão...
                                                                           ***
- Pronto mãe, está super arrumado.
- Super arrumado... deixa eu ver o guarda roupa!
- Ah mãe, você disse o quarto e não o guarda roupa.
- Hum...  então só duzentos e cinquenta dias!
- Duzentos e cinquenta dias? Só cinquenta menos?
- Então arrume o guarda roupa, que eu diminuo mais!
- Você é trocentas vezes chata!
                                                                             ***




- Pronto mãe, olha o guarda roupa!
- Posso abaixar e olhar debaixo da cama?
- Mãe, já arrumei o quarto e o guarda roupa! Chega não?
- Chega, mas são 150 dias sem o milhão de amigos virtuais.
                                                                                ***
- Pronto mãe, quarto, guarda roupa, e debaixo da cama! Agora chega!
- Vou ver a sapateira.
- Ai... me ferrei de novo!
- Agora são cem dias de solidão virtual...
                                                                                ***
- Pronto mãe, quarto, guarda roupa, debaixo da cama e sapateira!
- Deixa ver... ah, agora sim você zerou, pode continuar com seus zilhões de amigos! Vem cá, me dá um abraço!
                                                                                 ***
          Dias depois, a mãe vai limpar o quarto de hóspedes e descobre que a super, ultra, mega, blaster bagunça está toda empilhada atrás do armário. Ela diz sorrindo:
- Meu Deus, me dê uma super, ultra, mega, blaster paciência!
                                                                                 ***

Tarefa: Texto explorando o exagero.





                                  A DIFÍCIL TAREFA DE EDUCAR

- Mas eu quero do jeito mais fácil!
- Deixa de ser preguiçosa!
- Não vejo utilidade nenhuma em fazer tudo sempre do jeito mais difícil!
- É... de vez em quando, você até pode ter razão...
- Eu sempre tenho razão!
- Aff! Mas às vezes você é insuportável!
- Mas é verdade! Eu sempre tenho razão!
- Você tem é muita pretensão!
- Mas eu falo a verdade!
- Além de tudo, é teimosa.
- Só porque estou falando a verdade?
- Não! É porque você está inflando o seu ego!
- Você é uma chata, sabia?
- E você é metida, sabia?
- Muito chata, você fica o tempo todo me acusando, me botando pra baixo!
- E você fica o tempo todo se auto elogiando, se botando pra cima!
          Silêncio. Troca de olhares. Suspiros.
- Tá bom, vamos voltar ao começo. Tire a casca do tomate antes.
- Por quê? Eu quero bater no liquidificador, com casca e tudo!
- Se você não tirar a casca, o molho vai ficar muito ácido.



- Eu ponho açúcar pra cortar a acidez.
- Não é a mesma coisa!
- Não! É mais gostoso!
- E se você esmagar o tomate sem casca na panela e depois passar na peneira, o molho vai ficar muito mais encorpado, mais...
- Ahn... e eu vou ficar mais irritada, porque vai demorar muito mais!
- Não! Não cozinhe irritada porque a comida vai fazer mal! Você tem que cozinhar com carinho!     
          Silêncio. Olhares furiosos. Mais suspiros.
                                                                     ***
         Apesar da fúria, o molho ficou delicioso. Mãe e filha foram elogiadas pela bela macarronada. Até a nona, tão exigente, gostou.  Ambas agradeceram sorridentes, mas antes trocaram uma piscadela. Cumplices.
                                                                     ***
Tarefa: Diálogo.

terça-feira, 13 de agosto de 2019


                                           







                                                                 SALVADOR


                        Salvador, no carnaval. Sonho longamente acalentado. Desde que Caetano disse, pela       primeira vez, que quem não vai atrás do trio elétrico já morreu, Helena queria passar o carnaval em Salvador. Mas num ano tinha trabalho, noutro aquele convite imperdível para Ilhabela, noutro não tinha companhia... fazia tempo que queria ir e não conseguia.
Mas hoje, estava lá. E era perfeito. Estava comemorando o final de um relacionamento longo e doloroso. Nada melhor do que um carnaval na Bahia.
Logo no primeiro dia, os amigos resolveram ficar na piscina do hotel. Helena achava um desperdício!
                      - Depois de tantos planos, consegui dez dias de folga, passagem, estadia, em                                             pleno carnaval da Bahia, e vocês querem ficar na piscina! Vocês já morreram! Eu vou                           atrás do trio elétrico!!!
E foi. No táxi, nem sabia pra onde ir. Não conhecia Salvador. Pensou
               depressa. Lembrou-se do cartão postal.
                        - Para o elevador Lacerda, moço.
                          E deslumbrou-se com a paisagem, com o mar, o sol, e, principalmente,
                com sua  própria excitação.  Entrou na fila para subir o elevador, sentindo-se num livro de                    Jorge Amado. 

Quando saiu do elevador, quase perdeu o fôlego. Seus trinta e dois anos de vida não tinham registro de nenhum momento como esse. O som, os cheiros, as cores, o ritmo, o ritmo, o ritmo... Alucinante! Sentiu a energia do ar, entrando pelos seus poros e correndo em todas as suas veias, a vibração na pele, os tambores no peito... Pôs a mão no peito. Tremia mesmo. As pernas , primeiro bambearam... depois, começaram a acompanhar os tambores, e o movimento foi subindo, subindo, chegou nos joelhos, na cintura - nesse momento, ela se percebeu rebolando – e aquela onda continuou subindo, chegou no peito trêmulo – e então, ela descobriu que quando se movimentava, o tremor diminuía –  aí, começou agitar os braços e mergulhou de vez. Mergulhou de cabeça naquele mar de gente.Foi atrás do trio elétrico. Afinal, estava viva. E como! Não demorou a coordenar os movimentos. Entrou no ritmo. Soltou-se todinha. Cantava, rebolava, pulava, olhava em volta, reproduzia as coreografias dos baianos. Logo, começou a criar algumas coreografias. Era a alegria explodindo em todos os seus cinco sentidos.

                      Depois de algum tempo, não sabe dizer quanto, sentiu uma mão na sua cintura. Olhou. Um jovenzinho, quase adolescente. Moreno escuro? Mulato claro? Não importa. Era bonito. Belos ombros. Rebolava bem. Tinha ritmo.
-     Posso? – seus olhos eram claros, quase amarelos e sorriam.Helena não disse nada. Sorriu também e pôs a mão na cintura dele.
              Ficaram pulando juntos. Sem noção do tempo. Enquanto dançavam e   cantavam, Helena reparou que seus dentes eram lindos e seus braços eram fortes e protetores. Foi muito bom se sentir protegida por aqueles belos ombros e aqueles braços fortes.
-    Vamos parar um pouco? Eu estou com fome.
-      Olhe... a baiana tem acarajé.
             Cada um pagou o seu. Helena adorou o acarajé. Depois, acharam uma tendinha que vendia pinhas. Compraram logo uma dúzia. Saíram comendo e cuspindo as sementes, como metralhadoras. Tomaram cerveja e água de coco. Riram muito. Andavam de mãos dadas e ele ia mostrando as coisas do Carnaval da Bahia, ao som do trio elétrico. Ao pé das igrejas, os baianos rebolando, os casais se enroscando... Deus e o Diabo na terra do sol. E que sol... quando os miolos já estavam quase derretendo, chovia. E todo mundo continuava pulando, cantando e rebolando na chuva. Bendita chuva.

E assim foi o dia.
-           Como você se chama?
-           Dalton. E você?
-           Helena.
-           Helena... é de onde? – a fala cantada, cheia de malemolência...
-           De São Paulo.
-     Eu sou daqui mesmo... moro ali naquela rua ... Vamos ver o sol se pôr na Barra?
      Foi lindo o pôr do sol. Chuparam mangas, ficaram com a boca amarela. O primeiro beijo foi assim. Amarelo. O céu também estava amarelo, da cor da manga, da cor do beijo. O beijo teve a cor do céu.
-           Preciso ir embora. O pessoal no hotel deve...
-           E amanhã?
-           Amanhã eu volto.
-           Ta bom, eu te espero naquela praça, perto da minha casa.
-           Dez horas tá bom?
-           Tá. Olhe um táxi.

       Nos dias seguintes, Helena e Dalton dançaram mais, pularam mais, rebolaram mais, deram muitos beijos amarelos, metralharam muitas sementes de pinha, tomaram mais chuva, sol, cerveja, água de coco. Helena carregava uma sacola comprada no mercado modelo, com uma toalha, apetrechos de praia além do dinheiro e documentos. Assim, estava preparada para qualquer programa, pois ia de biquíni por baixo do vestido. O Carnaval acabou. Os amigos voltaram pra São Paulo, Helena adiou a volta. Queria ficar mais.
         Uma manhã, Helena experimentou um acarajé “quente” e cuspiu tudo, enquanto Dalton ria e comprava outro sem pimenta. Helena se vingou fazendo Dalton acompanhá-la a um museu. Ele foi e ficava olhando pra ela admirado.
-           O que é que você veio fazer aqui?
-           Vim conhecer o museu. Você tem idéia melhor?
Ele respondeu rapidinho. Olhos matreiros. Sorriso idem.
-     Eu tenho...
 Helena também ri.
-           Aonde vamos, então?
-          À  lagoa.
-           Que lagoa?
-           Abaeté.
        Tomaram o ônibus. Demorava. Iam passando por Ondina, Amaralina, Itapuã, muitas praias, muitos coqueiros, muitos beijos. Helena ia sentada perto da janela, sentindo o vento bater no rosto e a mão de Dalton ora no seu ombro, ora na cintura, ora...


A lagoa era linda. Cercada de dunas brancas.
Primeiro, subiram as dunas. Ficaram olhando para a mancha azul da lagoa, lá embaixo. Fazia um sol de rachar a moleira.
-           Vamos descer na correria?
                       Ficaram só com roupa de banho, e desceram correndo e gritando. A cada passo, a areia sôlta escorregava debaixo dos pés e a sensação era de queda, mas aí a perna se firma e é possível dar outro passo. Adrenalina correndo nas veias. Tarzan deve ter sentido isso quando inventou o grito. Nem montanha russa nem looping... é muito mais radical, é igual ao cipó do Tarzan, não dá para frear. Eles correram, correram e caíram dentro da lagoa...
Que delícia! Com aquele calorão, a água era tão boa... Eles se embolaram dentro da água, fizeram uma guerra molhada, dando tapas na superfície da lagoa e quase sufocaram de tanto rir. Depois saíram e começaram a subir de novo. Iam repetir a façanha. Quando chegaram em cima da duna, Dalton teve uma idéia melhor...
-           Que tal aqui e agora?
Helena olhou em volta, Dalton também. Não havia ninguém à vista. Tudo
  silencioso, tudo deserto. Helena sorriu.
-           Aqui e agora. O sol por testemunha.
Estenderam a toalha no chão, beijaram-se muito, abraçaram-se muito.
  Dalton tirou o sutiã de Helena. Ao ver seus peitinhos, exclamou sorrindo:
-           De menina... de menininha... – e beijou-os devagarzinho.

Helena fechou os olhos... O primeiro beijo tinha gosto de manga, o banho na lagoa lembrou as rajadas de sementes de pinha... e agora? A queda livre e louca da descida da duna? ... O acarajé “quente”?  Mas... que coisa boa!  Vem Dalton, vem tocar sua música na minha casa... Entre, que a casa é sua, dance a sua dança, no seu ritmo, assim, devagarzinho... – Helena pensava enquanto também acariciava Dalton – agora mais forte... mais rápido...  

Dalton com todo o vigor de seus vinte e poucos anos, entrou, dançou no seu
  ritmo, tomando muito cuidado para não assustar aquela moça da cidade grande, tão bonita e tão... frágil? ... não, não parecia frágil... inexperiente?... não, não parecia inexperiente... carente? ... é... acho que é isso... ela parece carente... E se sentiu responsável... preciso tratá-la com muito carinho, muito cuidado, para  não machucar... quero que ela seja feliz, comigo.
                
                        E assim foi. Eles começaram bem devagarzinho... bem de mansinho... e pouco a pouco, foram entrando no ritmo alucinante dos trios elétricos até sentiram no peito, o estrondo dos tambores... Terminaram assim. Exaustos. Ofegantes. Felizes. Sentindo o sol arder na pele e ouvindo apenas o silêncio das dunas... até que...
Palmas. Pedidos de bis. Mais um, mais um. Por que parou, parou por que...

                    -   Meu Deus, o que é isso? - Helena e Dalton ergueram o corpo e olharam espantados, na direção das palmas... lá embaixo, ao pé da duna, um grupo de uns vinte meninos, já adolescentes, entre doze e dezoito anos, talvez... rindo, fazendo a maior algazarra,
                   -     Mais um...   mais um...  mais um....

                       Helena e Dalton se levantaram correndo, morrendo de vergonha, morrendo de tanto rir, cataram as coisas, os maiôs caíram na areia, Helena passava a toalha nas pernas, enquanto Dalton sacudia a areia, sempre ouvindo as risadas  e os pedidos de bis dos moleques, se vestiram correndo, sunga, calcinha, sutiã, o sutiã estava difícil de abotoar, Helena enfiou de qualquer jeito as coisas na sacola, acabou de limpar as pernas, se enrolou na toalha e saíram correndo...

                      Dessa vez a descida da duna foi desenfreada mesmo! De perder o fôlego!  A cada passo, uma vertigem... Helena perdeu o equilíbrio e Dalton, na corrida foi ajudá-la, perdeu o equilíbrio também, e os dois se embolaram vertiginosamente até a água. A sacola se abriu e todas as coisas se espalharam pela descida... Até que aos trambolhões, caíram na água e quase se afogaram de tanto rir. Ficaram assim por um tempo. Dentro d’água, rindo e se refrescando, torcendo para que os moleques tivessem desistido de acompanhá-los. Depois de uma meia hora, mais ou menos, e de muitos beijos geladinhos, eles resolveram sair da água.
                     Helena se enrolou na toalha que havia caído perto da margem e os dois subiram a duna, para recolher as coisas. Tudo recolhido, tudo conferido, não faltava nada, os meninos felizmente tinham ido embora, eles resolveram dar a volta na lagoa, até uma barraquinha para tomar uma merecida cervejinha, depois de tantas aventuras...
                    E lá se foram os dois, de mãos dadas, felizes da vida. Chegaram na barraca fresquinha, com cobertura de sapé, sentaram-se nos banquinhos. Helena, finalmente se desenrola da toalha e Dalton cai na gargalhada.
-           Que foi? Quero rir também!
-           Seu sutiã – a voz quase não sai de tanto rir – está do avesso!


     Depois do último beijo, no aeroporto, Dalton disse:
-           Eu nunca vou me esquecer de você.
Ou será que foi Helena que disse isso?

                      Na verdade, não importa. Hoje, muitos carnavais e muitos amores depois, a lembrança daquele carnaval e daquele amor, produz os melhores sorrisos, tanto em Helena, quanto em Dalton.  Ambos cumpriram a promessa.

                                                                   ***

Esse conto não fez parte da oficina literária. Foi escrito muitos anos antes.

                                                











                                              ROSILDO E ROSÉLIA


          O belo homem chegou bem perto do Rosildo e disse:
- Olhaí no seu aparelho, eu trouxe a lista. É só você escolher um pecado.
          Rosildo pega o celular e nem precisa ligar, a lista já está na tela. “Ele tem poderes” pensa.
- Vamos começar pelo primeiro: Orgulho. Será que escolho esse?
- Sei lá... às vezes não me parece pecado. As pessoas se orgulham da família que têm, estufam o peito com o hino nacional, quando fazem um trabalho bem feito ou  quando seu time ganha um campeonato... não vejo maldade nisso...
          O belo homem tem uma expressão de dúvida, seus olhos oscilam entre o verde e o azul metálico.
- Então Orgulho não é pecado? Eu ia escolher esse!
- Em algumas situações sim! É só ver a arrogância dos políticos! Barriga cheia, bolsos também, peito cheio de superioridade e cabeça vazia de ideias. Quando é assim, é um pecado, dos bons! – Os olhos assumem um verde metálico intenso e os cabelos se despenteiam no alto, parecem crescer, encorpar – Mas esse é um pecado para gente inteligente. Você não conseguiria. Vamos partir para outro.
- Avareza? Será...
- Avareza não, seu burro! Um pé rapado como você não pode ser pão duro, só pode ser duro mesmo!
- E Luxuria? Bem que eu gostaria...
- Você não se enxerga? Muito luxo, muitas mulheres, muito sexo, muitos vícios... Você não tem dinheiro suficiente e nem competência, pra cometer esse pecado!
          O belo homem já não está tão belo. O alto de sua cabeça cresce, seus olhos são cruéis, seu hálito é fétido.
- Inveja?
- Ah! Esse você pode! – ele volta a ser belo imediatamente.
- Tá bom. Então eu fico com esse – Rosildo quer acabar logo com esse papo – Vamos planejar as ações?
- Deixe de ser apressado! Só podemos escolher depois de verificar a lista inteira. Vamos ao próximo.
- Ah, Seu Lulu, assim tá ficando muito difícil!
- Seu Lulu é a mãe! Olha lá rapaz, se você me chamar de Lulu novamente, eu não faço trato nenhum! – Ele fica feio de novo, os olhos variam do amarelo para o vermelho, a cabeça dele cresce, a pele escurece. Rosildo tem medo.
- Tá bom, tá bom, vamos ao próximo: Gula. Pensando bem, esse eu não quero. Se escolher esse, eu engordo e para conseguir o que desejo, preciso ser bonito.
- É ... acho que você tem razão. Você precisa, pelo menos ser bonito. – Ele olha Rosildo de alto a baixo, meio desanimado. – Será que você consegue sentir Ira?
- Ah, quando eu penso no IPTU, no IPVA, no IR... Quando o “sistema” cai na minha vez, depois de horas de fila... Quando me fecham no trânsito, me dá vontade de matar alguém!
- Hum, hum... essa sua Ira não me convenceu muito. Mas o próximo é a sua cara!
- Qual é o próximo, seu Lu...
- O homem fica feio outra vez. Muito feio. Pele escura, hálito de enxofre, olhos de fogo.
- Não se atreva nem a pensar nesse apelido ridículo. Eu exijo respeito!
- Qual é o próximo, senhor?   
          O homem acalma um pouco. Até é capaz de um pequeno sorriso.
- O último: Preguiça.
- Ah, mas que pecado gostoso!  Pra esse eu sou perfeitamente capaz. Então tá resolvido. Eu tenho que cometer três pecados: Inveja, Ira e Preguiça. E em troca...
- Há... há... há... - O homem riu uma risada maldosa, soltou um arroto de enxofre, cuspiu as palavras de maneira asquerosa - Não, não, não! Nosso trato é para um pecado só! Mas um pecado que seja cometido com toda a intensidade possível, com todo o ódio de que um ser humano for capaz, que seja a fonte de muitas maldades... – ele falava com empolgação, arrotava enxofre, vomitava um líquido pútrido e ria, ria muito enquanto falava.
          Rosildo olhava assustado, estava quase arrependido.
- Vamos Rosildo escolha logo o seu pecado! – grita, feroz. Cresceram chifres no alto de sua cabeça e ele brandiu um tridente.
          Rosildo se arrepende de vez.
- Olha seu Lulu, ou melhor, senhor Lúcifer, eu desisti. Não quero pecar assim. Não vou mais vender minha alma. Pensando bem, a Rosélia não merece. Ela que fique com aquele namorado sonso dela! 
                                                                     ***
Tarefa: Texto sobre os pecados capitais.
  

segunda-feira, 12 de agosto de 2019








                                                    QUASE PRECONCEITOS  
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                 
          Um dos últimos cinemas de rua. Plateia muito diferente daquela dos cinemas de shoppings. Olho em volta. Salão de espera bem cheio. Observo a fila da pipoca.
          Vários pares de intelectuais gays conversando muito, gesticulando muito, discutindo temas da moda. Às vezes, trocam olhares intensos. Alguns ostentam barbas bem cuidadas e brinquinhos discretos. Outros usam óculos. Quando me olham, mostram uma certa arrogância defensiva. Mas no geral, nem me olham.
          Grupos de mulheres com roupas esquisitas falam sobre temas feministas. Algumas são lésbicas, seguram a mão de suas parceiras. Seus olhares são quase agressivos. Empoderadas.
          Mulheres, muitas mulheres, a maioria parece ter por volta de cinquenta anos, cabelos claros, cheios de luzes. Devem gastar muito em cabeleireiros. Bem vestidas, roupas de grife.
          Dois velhinhos com bengala. Talvez os únicos machos do sexo masculino.
          Um casal jovem. Ele sarado, cheio de músculos, braços tatuados cabelo moicano. Ela bem bonitinha, olhos muito maquiados, cabelo roxo e argola no nariz.
          Muitos casais descolados, homens de óculos e barbas, mulheres com saia longa e cabelos desgrenhados. Parecem ser militantes de alguma causa naturalista ou vegana. Olhares de quem conhece seus direitos.
          E eu aqui parada. Toda óbvia!
- Óbvia? Como assim óbvia?
- Saia combinando com a blusa e sapatos combinando com a bolsa.
- E isso é ser óbvia?
- Uma vez, eu fui para o Havai. Adivinha o que eu trouxe de presente para minhas filhas?
- ???
- Sandálias havaianas.
 - Ah! Entendi.
- Eram ruins. As do Brasil são melhores.
- Hum.

          As pipocas estavam boas e o filme foi ótimo.

                                                                                  ***







                                                             O  MONSTRO

                                                          
              Ele entrou no meu quarto. Magro, muito magro. Luminoso, quase transparente. Olhos em chamas. Ou melhor, um olho em chamas e o outro em lágrimas. Acho que tinha chamas nos dois olhos, mas as lágrimas apagaram as do olho esquerdo.
          Tenho medo. Ele tenta me acalmar, emitindo raios azuis com as mãos esquálidas. Os raios são calmantes. Eu sossego um pouco. Só um pouco. Pelo menos, paro de tremer.
          Ele chega mais perto - Ai, meu Deus! - Move suas longas pernas e faz gestos com seus longos braços – Jesus! - Não emite som algum, mas parece estar gritando. Eu permaneço deitada em minha cama, imóvel, inerte, sem saber se estou muito curiosa ou muito apavorada.
           Quero saber quem ele é, ouvir sua voz, perguntar de onde veio e o que quer comigo. Mas as palavras morrem na minha garganta. Não digo nada. Fico só olhando aquele assustador conjunto de ossos luminosos, cobertos por uma carne quase transparente, que vem se aproximando devagar gritando silenciosamente e me olhando com seus olhos de fogo e água.
          Reúno todas as minhas forças. Quem sabe se eu conseguir falar alguma coisa, ele me responde? A curiosidade vence o pavor:
- Quem é você? – voz trêmula, fraquinha, fraquinha, quase inaudível.
- Sou o seu ódio! – voz forte, porém macia. Não está gritando em silêncio, como eu achei que fazia.
- Meu ódio?!?! – espanto - Como?
- Moro dentro de você! – agora, ele grita!
- Não!!!  Eu não quero isso, não tenho nada tão horrível dentro de mim! - Percebo que quem grita em silêncio sou eu.
- Ha, ha, ha – risada medonha – ninguém admite nem gosta de seus próprios ódios! – Seu olho direito cospe chamas.
- Eu não tenho ódios!!! – grito com todas as minhas forças.
- Não? – mais risada - Nem quando seu homem vai beber com os amigos?  E quando alguém te dá uma dica de chá para emagrecer? E quando seu cabeleireiro erra a mão e corta demais o seu cabelo?
- Mas, eu não... –  grito indignada, mesmo sabendo que não sou ouvida.  Continuo gritando. Só interrompo quando percebo que ele está ficando cada vez mais e mais transparente e seu olho esquerdo chora lágrimas ferventes, que evaporam, fazendo uma nuvem negra, tenebrosa. Ele está desaparecendo atrás dessa nuvem.
- Ei! Não vá embora! Me escuta! Eu não... – grito, grito, em silêncio.
          E ele, sempre rindo sua risada cavernosa, fala com sua voz macia:
- E “aquela” mensagem no WhatsApp?
- Ai, que óóóódiooo!!! – grito sem perceber.
- Ha... ha... ha... viu?
          E some. Resta apenas a nuvem negra.
                                                                                  ***
         - Você outra vez? – já falei brava.
- Quase – voz cavernosa.
- Como assim, quase?
- Eu mudei um pouco...
          Observo melhor. Agora que admiti que tenho alguns ódios, não tenho mais tanto medo. Ele não está mais tão magro. Olhando bem, até parece meio gordinho. Nem tão transparente, está mais consistente, mas os olhos... ah... os olhos continuam ameaçadores. Agora trabalham em conjunto. Ora cospem chamas, ora choram lágrimas ferventes.
- Por que você voltou? - atrevo-me a perguntar.
- Eu vi a carta que você recebeu.
- A da Embaixada?
- Essa mesmo. Você não vai abrir? – ele não fala, ele vocifera! Seus. olhos piscam labaredas!
          Reúno minhas forças para responder.
- Tenho que abrir, mas...
- Mas... – ele se aproxima gritando.
           Eu me encolho. Ele arregala os olhos. Posso ver suas lágrimas, antes de ferverem! Tenho medo, pavor, estou paralisada. Ele vai chegando cada vez mais perto...
- Não! – grito e não ouço o meu grito - Não chegue tão perto! Fique longe de mim!
- Sua boba! Eu moro dentro de você, esqueceu? Não chegue perto... ha... ha... ha... Diga logo, vai ou não vai abrir a carta? – Sua voz parece um trovão, uma ventania, uma tempestade!
          E a tempestade se aproxima. Eu aterrorizada segurando a carta com mãos trêmulas... ai meu Deus, tenho que abrir a carta, senão...
          Nesse momento, outro estrondo, um pé de vento! A janela se abre e a carta...
          A carta voa!
          O monstro cospe fogo com os olhos, depois chora vendo a carta ir embora levada pela ventania.  Ele fica ainda mais feio, mais ameaçador, mais tenebroso... e diz, antes de sumir na nuvem negra:
- Agora, eu sou sua curiosidade!
                                                                      ***
          Ele novamente no meu quarto! Quase não o reconheço!
- Você de novo! Nossa, como você está diferente! – meu medo sumiu!
          Fico olhando admirada. Está gordo, não é mais transparente, seus olhos não têm mais fogo nem água, são verdes. Embaçados, aguados, enfumaçados, opacos, que se mostram alternadamente com assustadores buracos negros vazios... Os buracos tem um poder de sucção, eu me seguro para não ser sugada.
          Os olhos me olham durante os momentos em que se mostram... Ele até sorri um pouco... parece estar me convidando, mas se eu me aproximo, os olhos se esvaziam e os buracos negros me chamam... Meu pânico retorna! Estou toda aterrorizada, na defensiva.
- Vá embora, não quero mais você! – falo comum fio de voz – não quero mais você dentro de mim!
- Eu volto para o meu lugar, mas só porque o seu pânico reapareceu. Mas um dia, você vai me aceitar!  Vai perder todo o medo! Nesse dia eu vou embora para sempre.  – Ele está manso, sorridente, gordinho e com olhos inteiramente visíveis.
- O quê?!?!?  O quê é que tem uma coisa de ver com a outra?
          Ele fica todo gordinho, fofo, sorridente, voz macia, simpático. Parece inofensivo, mas meu pânico recomenda permanecer desconfiada. 
 - Agora eu sou o seu tédio!
          E some.
          E eu descubro que esse é o maior dos perigos.
                                                                           ***
          Tarefa 1: Criar e descrever um personagem. Fazer crônica, mini conto ou poema com esse personagem.
Tarefa 2: o personagem recebe uma carta.
Terefa 3: finalizar.